Segurança pública mobiliza eleitor — da esquerda à direita
Pesquisas mostram que violência supera corrupção, saúde e economia como tema entre brasileiros; preocupação comum, soluções diferentes
Se há um tema que mobiliza a atenção dos brasileiros, é o da (in)segurança pública. Pesquisa mostra que quase a totalidade dos brasileiros — 96,2% — afirma sentir algum tipo de medo relacionado à criminalidade, seja de golpes digitais, roubos à mão armada ou violência letal.
O dado, extraído do relatório “Medo do Crime e Eleições 2026”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado no início de maio, integra um conjunto de evidências que posicionam a insegurança pública como a principal preocupação do eleitorado nacional — uma convergência rara em um país marcado por divisões políticas profundas.
Não existe polarização quanto ao medo
Segundo a pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 13 de maio, a violência é o assunto mais importante para a população brasileira no período de maio de 2025 a maio de 2026, superando pautas historicamente centrais no debate eleitoral, como corrupção, saúde, economia e educação.
O indicador permaneceu no topo das prioridades, ou muito próximo dele, durante praticamente todo o período analisado.
O caráter transversal do tema fica evidente quando os dados são segmentados por posicionamento ideológico.
Entre eleitores que se identificam com Lula, a violência lidera com 36% das menções em maio de 2026. No grupo da esquerda não lulista, o índice chega a 29%. Entre os de centro, segmento considerado o mais volátil do eleitorado, a insegurança pública ocupa o primeiro lugar, com 31% das respostas.
Já nos segmentos de direita e entre bolsonaristas, onde a corrupção disputa protagonismo e, nos últimos meses, chegou a superar a violência como preocupação principal, a insegurança pública permanece entre os temas de maior destaque, muito à frente de saúde, educação e economia.
De acordo com as informações da Genial/Quaest, ao calcular o coeficiente de variação entre janeiro e maio de 2026, a violência aparece como o tema com menor oscilação entre os grupos políticos — combinando alta saliência com relativa estabilidade independentemente do posicionamento ideológico.
A corrupção, por outro lado, apresenta variação significativamente maior entre os diferentes segmentos, assumindo maior ou menor centralidade conforme a orientação política dos entrevistados.
O medo é o mesmo; as respostas a ele, não
A convergência em torno do problema não implica consenso em torno das soluções. Aqui, a polarização aparece.
Pesquisa do Instituto Sou da Paz, publicada em 18 de maio, indica que a maioria dos brasileiros tende a apoiar medidas associadas ao fortalecimento das instituições e da capacidade estatal, em detrimento de respostas exclusivamente punitivas ou armamentistas.
Segundo o levantamento, a frase “bandido bom é bandido morto”, recorrente no discurso público de certos grupos, tem adesão de 20% dos entrevistados. Em contrapartida, 73% defendem que criminosos devem ser julgados e presos. Entre as prioridades apontadas, 55% acreditam que o país precisa aplicar corretamente as leis já existentes, percentual superior ao dos que defendem o aumento das penas, citado por 39%.
A pesquisa do Instituto Sou da Paz também registra amplo apoio a medidas de controle e aprimoramento das forças de segurança: 82% são favoráveis ao uso de câmeras corporais por policiais, e 65% defendem uma polícia “melhor e mais preparada”.
Sobre o armamento civil, 77% acreditam que armas adquiridas legalmente podem chegar ao mercado ilegal, e 73% avaliam que mais armas em circulação tendem a ampliar a violência.
Agenda eleitoral em disputa
O conjunto dos dados aponta que a polarização política reorganiza a hierarquia de prioridades do eleitorado, mas não elimina preocupações compartilhadas. A violência permanece como denominador comum entre grupos que, em outros temas, apresentam divergências expressivas.
Para os candidatos à Presidência da República, o desafio é traduzir esse consenso difuso em propostas concretas de políticas públicas, e disputar a credibilidade junto a um eleitorado que, segundo os dados disponíveis, rejeita em larga medida as soluções mais simplistas para um problema de alta complexidade.
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