Rodolfo Borges na Crusoé: Por que pessoas boas defendem juiz ruim?
Livro do psicólogo social americano Jonathan Haidt indica um caminho para enfim melhorar a arbitragem brasileira
O Campeonato Brasileiro foi tomado mais uma vez pelo estratégico debate sobre arbitragem.
Em busca de pontos preciosos, dirigentes, treinadores, jogadores e torcedores destacam erros e decisões discutíveis dos juízes contra seus clubes e relativizam — ou simplesmente calam sobre — os equívocos cometidos a seu favor.
Alguns palmeirenses debocharam do “choro” são-paulino após os erros que proporcionaram a virada por 3 a 2 no Morumbi, e acabaram virando alvo de deboche depois de o Palmeiras perder pelos mesmos 3 a 2 para o Flamengo em jogo no qual o árbitro não marcou pênalti claro logo no início da partida.
Já ficou claro que os erros vão prejudicar todo mundo, mas isso não levou os clubes a se unirem para tentar proporcionar uma melhor arbitragem.
Pelo contrário, a estratégia é pressionar os juízes para que eles tenham mais medo de errar contra seu time.
“A moralidade une e cega. Ela nos une em equipes ideológicas que lutam umas contra as outras como se o destino do mundo dependesse da vitória do nosso lado em cada batalha. Ela nos cega para o fato de que cada equipe é composta por boas pessoas que têm algo importante a dizer”, diz o psicólogo social americano Jonathan Haidt em The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (Vintage).
Liberais e conservadores
O livro é sobre política, mas também serve para pensar o futebol — até porque a política passou a emular a lógica de clubes.
Há dois times políticos basicamente hoje em qualquer lugar democrático do mundo: os liberais (esquerda) e os conservadores, duas categorias tratadas por Haidt sem juízo de valor.
“Pessoas cujos genes lhes deram cérebros que sentem um prazer especial pela novidade, variedade e diversidade, ao mesmo tempo que são menos sensíveis a sinais de ameaça, estão predispostas (mas não predestinadas) a se tornarem liberais”, descreve o psicólogo.
Já os conservadores são “o partido da ordem e da estabilidade”, diz Haidt citando John Stuart Mill, e completando:
“Eles geralmente resistem às mudanças implementadas pelo ‘partido do progresso ou da reforma’. Mas colocar as coisas nesses termos faz com que os conservadores pareçam obstrucionistas medrosos, tentando deter o tempo e as ‘nobres aspirações humanas’ da narrativa progressista liberal. Uma maneira mais positiva de descrever os conservadores é dizer que sua matriz moral mais ampla lhes permite detectar ameaças ao capital moral que os liberais não conseguem perceber. (…) Eles reagem ferozmente quando acreditam que a mudança prejudicará as instituições e tradições que fornecem nossos exoesqueletos morais (como a família). Preservar essas instituições e tradições é o seu valor…
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