Rodolfo Borges na Crusoé: Paraíso perdido na seleção
“Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu”, diz Satanás no clássico de Milton. É o que sugere a unanimidade da reeleição na CBF
Uma masmorra horrível, uma grande fornalha flamejante, mas sem luz; uma escuridão visível. É como Milton descreve o inferno no clássico Paraíso Perdido. “Regiões de tristeza, sombras dolorosas, onde a paz e o descanso nunca podem habitar, a esperança nunca chega”. É mais ou menos como assistir a um jogo da seleção brasileira em 2025.
Não é a primeira vez que o desempenho do Brasil assusta nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Esse tipo de susto até se tornou um bom sinal, porque ocorreu algo parecido nos nossos dois últimos títulos mundiais, em 1994 e 2002. Mas a seca de títulos, que inclui até outrora fácil Copa América, deixa a situação mais desagradável.
Após ganhar o mundial nas décadas de 1950, 1960, 1970, encantar mesmo derrotado em 1980, e voltar a ganhar nas décadas de 1990 e 2000, a seleção brasileira vai completando a segunda década longe do troféu. E passando por humilhações históricas — a goleada por 4 a 1 para a Argentina nas Eliminatórias se uniu ao 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa de 2014 na mesma prateleira de vexames.
Unanimidade
Mesmo assim, Ednaldo Rodrigues, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que chegou quase por acaso ao comando da instituição, foi reeleito com 100% dos votos. Nenhum dos 40 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, nem qualquer dos presidentes das 27 federações, votou contra ele.
A chapa era única, mas os eleitores insatisfeitos poderiam ter se abstido. Teriam evitado a unanimidade, que Nelson Rodrigues crucificou há décadas. Todos os dirigentes parecem satisfeitos, contudo, apesar de a seleção brasileira estar para trocar de treinador pela quarta vez desde a saída de Tite, ao fim da Copa de 2022, e sem rumo.
O Brasil tolerou Ramon Menezes e Fernando Diniz como técnicos interinos, à espera de Carlo Ancelotti, que preferiu ficar ganhando títulos no Real Madrid. Dorival Júnior assumiu quando todo mundo se tocou de que o salvador italiano não viria, e não conseguiu dar um jeito na seleção, que vai ficando para trás agora também em seu próprio continente.
Pecado
Agora, todos esperam o salvador português, que se chama Jesus só por acaso — apesar de o Brasil não estar em condição de desprezar qualquer sinal no momento. “Eis-me então, eu por ele, vida por vida”, diz o filho de Deus, no poema de Milton, oferecendo-se em sacrifício para salvar a humanidade corrompida pelo vingativo Satanás.
É difícil definir em que momento o futebol brasileiro provou do fruto proibido e deixou o paraíso. Talvez todo o futebol…
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Comentários (1)
CARLOS HENRIQUE SCHNEIDER
06.04.2025 10:00O momento exato do fruto proibido responde pelo nome Lei Pelé de 1998! Em nome da liberdade dos jogadores, em detrimento dos clubes, uma horda de craques abandonou os clubes formadores (o primeiro foi o genial Ronaldinho Gaúcho) que ficaram a ver navios. Como regra, habilidosos meninos de15... 13 anos, já contam com procuradores e salários muito acima da média de um trabalhador comum, sendo os mais destacados transferidos para os milionários clubes europeus. É coincidência?