Rodolfo Borges na Crusoé: Os meias abertos da América Latina
O futebol brasileiro não pode cair na armadilha do ressentimento montada pelo confronto com europeus na Copa do Mundo de Clubes
A Copa do Mundo de Clubes despertou nos torcedores brasileiros o ressentimento semeado por As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. As vitórias do Botafogo sobre o PSG e do Flamengo sobre o Chelsea soaram como algum tipo de vingança e foram usadas para afirmar um orgulho perdido, mas o fato é que quase nada mudou.
O que ocorreu nos gramados dos Estados Unidos durante o torneio promovido pela FIFA se chama futebol. Segue sendo o único esporte do mundo em que o pior time pode ganhar do melhor time, mesmo jogando mal. Botafogo e Flamengo jogaram bem, mas obviamente se beneficiaram do menor interesse dos adversários, em fim de temporada.
A distância dos principais times brasileiros para os europeus se encurtou, contudo. Gerson, Luiz Araújo e Vitor Roque são alguns dos jogadores que foram repatriados recentemente a peso de ouro. Flamengo e Palmeiras já mostraram, cada um ao seu modo e condições, que o melhor caminho é a responsabilidade e a organização.
Distância
O Botafogo se beneficiou com o dinheiro do dono e vai empilhando glórias como há muito não fazia, sabe-se lá até quando. Os torcedores desses times, e também do Fluminense — outro que não está fazendo feio — têm mais que aproveitar o momento, mas é um salto muito grande querer tirar conclusões sobre a distância entre o futebol praticado na Europa e no América do Sul a partir desse torneio.
“A Europa necessitava de ouro e prata. Os meios de pagamentos em circulação se multiplicavam sem cessar e era preciso alimentar os movimentos do capitalismo na hora do parto: os burgueses se apoderavam das cidades e fundavam bancos, produziam e trocavam mercadorias, conquistavam novos mercados. Ouro, prata, açúcar: a economia colonial, mais abastecedora do que consumidora, estruturou-se em função das necessidades do mercado europeu, e a seu serviço”, descreve Galeano ao falar sobre a colonização europeia da América Latina.
O uruguaio, que admitiu, pouco antes de morrer, que não tinha a formação necessária para escrever um livro como o que lhe deixou famoso, trata…
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