Relatório da PF insinua que Mendonça transformou Alcolumbre em alvo estratégico
Relatório da PF citado por Moraes aponta suposto viés político e tratamento desigual na condução de investigações
A Polícia Federal identificou o que classificou como “assimetria de tratamento” na condução de investigações pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e apontou um suposto “viés político” contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
As conclusões constam de um relatório de inteligência produzido pela PF e citado pelo ministro Alexandre de Moraes em despacho encaminhado nesta quinta-feira, 3, ao presidente do STF, Edson Fachin. No documento, Moraes afirma que os elementos levantados pela corporação indicam que Mendonça teria direcionado investigações para atingir autoridades políticas — expediente que, segundo o ministro, também teria sido utilizado contra ele próprio.
Segundo a PF, Alcolumbre teria sido tratado como “provável alvo estratégico” em razão de sua força política e da possibilidade de permanecer na presidência do Senado na próxima legislatura.
O relatório também relaciona a suposta movimentação ao empresário Antônio Rueda, presidente do União Brasil. A avaliação dos investigadores é que Mendonça poderia enxergar Rueda como uma “rota de acesso” a Alcolumbre, com quem teria uma desavença anterior relacionada à indicação de Mendonça ao STF, durante o governo passado.
A hipótese aparece no contexto de uma discussão sobre o desmembramento de investigações envolvendo Rueda e ACM Neto. De acordo com a PF, Mendonça teria defendido, em reunião presencial, que os casos fossem separados, apesar da aparente conexão entre as condutas investigadas.
Para os investigadores, o episódio destoaria de outra decisão atribuída ao ministro.
“Registre-se a assimetria de tratamento”, escreveu a PF, ao comparar a defesa do desmembramento no caso envolvendo Rueda e ACM Neto com uma situação anterior, de julho de 2026, na qual Mendonça teria se oposto à separação de investigações mesmo quando, segundo a unidade policial, não havia conexão entre os fatos.
A PF sustenta, assim, que critérios diferentes teriam sido aplicados em situações semelhantes. O relatório passou a integrar a ofensiva de Moraes contra Mendonça, que, no despacho desta quinta-feira, afirmou que os fatos podem configurar improbidade administrativa e abuso de autoridade.
A ofensiva ocorre em meio ao agravamento da tensão entre os dois ministros. Mendonça foi responsável por retirar o sigilo de uma investigação que revelou mensagens envolvendo Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, no caso Banco Master. Agora, Moraes usa relatórios da própria PF para sustentar que o colega teria extrapolado os limites de sua atuação na condução de investigações.
O documento, porém, é um relatório de inteligência, produzido para avaliação de riscos e sem valor probatório. As conclusões registradas pela PF deverão ser analisadas no âmbito das providências solicitadas por Moraes.
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