“Regime de escravidão”, diz juíza sobre fim dos penduricalhos
Desembargadora recebeu R$ 91,2 mil em março: “Uma expressão tão chula e tão vagabunda que jogaram em cima da magistratura”
“Quanto mais a gente se defende, mais a gente é execrado”, disse uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Pará durante sessão judicial, ao protestar contra os novos limites para o pagamento de benefícios extras a magistrados – os penduricalhos – estabelecidos pelo STF. Eva do Amaral Coelho foi além e avisou: “A população vai sentir quando ela procurar a justiça e realmente não tiver. Aí ela vai sentir e vai ver de que lado ela optou”.
O “desabafo” de Eva foi feito no último dia 9, à 3ª Turma de Direito Penal do TJ-PA. “Hoje nós passamos de cidadãos que zelam pela proteção dos direitos para vilões da história. Nós somos os bandidos agora”, afirmou.
A desembargadora disse que narrativas foram construídas para retratar o juiz como alguém sem escrúpulos, interessado em “ganhar muito sem fazer nada”. Para rebater essa visão, convocou a população a acompanhar a rotina dos magistrados: “Eu queria que parte da população viesse viver o dia a dia do juiz e do desembargador, para ver como é que a gente trabalha. Enormes horas extras, sacrificando fim de semana”.
Antes de encerrar sua fala, Eva pediu desculpas aos colegas presentes e classificou o pronunciamento como um “desabafo sobre uma situação muito triste”.
Escravidão, contas a pagar e silêncio
A magistrada também comparou a situação financeira da categoria à de trabalhadores submetidos a condições extremas. “Daqui a pouco a gente vai estar no rol daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”, disse, em referência ao impacto dos cortes nos rendimentos dos juízes.
Eva mencionou que colegas já enfrentam dificuldade para honrar compromissos financeiros e criticou o termo “penduricalho” — usado publicamente para se referir aos benefícios extras pagos a magistrados: “Uma expressão tão chula e tão vagabunda que jogaram em cima da magistratura que hoje a gente vive com uma tensão enorme”, afirmou.
A desembargadora tem 73 anos, ingressou na magistratura por concurso público na década de 1980 e ocupa o cargo de desembargadora desde 2020. De acordo com a folha de pagamento do TJ-PA, recebeu R$ 91,2 mil líquidos em março de 2026 — o mesmo mês em que o STF fixou os novos tetos para os benefícios da categoria.
O Tribunal de Justiça do Pará não respondeu aos contatos feitos por telefone e e-mail até o fechamento desta reportagem.
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Comentários (4)
Ita
21.04.2026 10:13Não foi desabafo, foi ameaça com intensão de chantagear a população. Triste, lamentável, inacreditável é, uma autoridade com tanta influência sobre a vida dos "comuns, Zé ninguém, como disse aquele intocável, oficialmente se manifestar desse modo.
Alcimar Costa
21.04.2026 06:36Está pessoa ofende todos os brasileiros que trabalham duro . Pede para sair...vai ser faxineira.
Isabela Corrêa
21.04.2026 05:45Imagin um trabalhador que recebe 1 salario minmo e gasta boa parte do seu dia em um transporte publico lotado
Marian
20.04.2026 21:54Foi desabafo? Fico imaginando como deveria ser o desabafo de quem recebe R$ 1.600,00 por mês para viver.