Quando o alarmismo midiático mais atrapalha que ajuda
Informações sobre a crise da Gripe Aviária exageram os perigos e omitem a falta de investimento de governos e da União
A detecção da gripe aviária em um criadouro industrial no Rio Grande do Sul, em maio de 2025, expôs vulnerabilidades profundas na biossegurança e trouxe à tona o papel da mídia na cobertura de crises sanitárias e econômicas.
O episódio, que culminou no embargo do frango brasileiro por grandes importadores como a China, levanta questões sobre a influência das condições socioambientais – como as históricas enchentes que assolaram o estado gaúcho em 2024 – na disseminação de patologias coletivas, um aspecto frequentemente negligenciado pelo noticiário.
Contexto global e disseminação da doença
A narrativa inicial da gripe aviária, que teve seu primeiro surto na China em 1994, equivocadamente culpou aves selvagens migratórias pela disseminação. No entanto, análises posteriores revelaram que as protagonistas eram, de fato, as galinhas de criadouros comerciais.
Segundo Carlos Roberto Oliveira, pesquisador em Direito Biomédico e professor da UNIRIO, “demorou para que as aves migratórias parassem de ser acusadas por um problema evidentemente causado pela atividade comercial de criação e venda de galinhas para consumo”.
A facilidade com que milhares de galinhas congeladas são transportadas por via aérea ao redor do mundo em menos de 24 horas sublinha o papel da globalização, dos meios de transporte velozes e do comércio – lícito e ilícito – na rápida disseminação de patógenos.
Embora a doença tenha gerado alarmes globais, as estatísticas de mortalidade humana são baixas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) registrou apenas 15 óbitos humanos por gripe aviária entre 2020 e 2025.
O impacto mais significativo tem sido a morte de milhões de aves – domésticas e selvagens – em 85 países e territórios em 2022, além do efeito cascata nos mercados globais, impactando o preço do frango. O Brasil, segundo maior produtor e maior exportador mundial de carne de frango em 2022, ocupa uma posição estratégica nesse cenário econômico, que movimentou cerca de 300 bilhões de dólares globalmente naquele ano.
Enchentes, biossegurança e o papel da mídia
A chegada da gripe aviária ao Brasil em 15 de maio de 2023, inicialmente em aves silvestres, ganhou uma nova dimensão em maio de 2025, com o reconhecimento oficial de um caso em um criadouro industrial no município de Montenegro, Rio Grande do Sul. Esse evento ocorreu em um período em que o estado ainda se recuperava das devastadoras enchentes de abril e maio de 2024, que afetaram 478 das 497 cidades gaúchas e cerca de 2,5 milhões de habitantes.
As enchentes, ao degradarem as condições de vida para humanos e animais, também comprometeram a biossegurança dos criadouros industriais. Conforme observa Carlos Roberto Oliveira, “não seria estranho pensar em uma queda também na biossegurança dos criadouros industriais de aves”. Prova disso foi o reaparecimento da doença de Newcastle em Anta Gorda, outro município gaúcho atingido, em julho de 2024, patologia ausente no estado desde 2006.
Curiosamente, a forte cobertura jornalística sobre a gripe aviária no Rio Grande do Sul preferiu focar nas listas de países que embargaram a compra do frango brasileiro, em vez de se aprofundar na coincidência do surgimento das doenças em municípios atingidos pelas enchentes. A mídia, seguindo uma “lógica do espetáculo”, não se interessou em “ligar os pontos e discutir a determinação social da doença”, de acordo com Oliveira.
Historicamente, como na Peste de Atenas, o pânico gerado por epidemias pode ser tão problemático quanto a doença em si, e a mídia, com sua capacidade de amplificar informações, pode tanto informar quanto desinformar. O caso gaúcho reitera que, sem a melhoria das condições de vida e trabalho, a ameaça da “peste” persistirá. A propósito: a quantas andam os investimentos estaduais e federais para a reestruturação das cidades e prevenção de incidentes como os do Rio Grande do Sul?
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