Publicitário diz ter acertado campanha com Vorcaro
Thiago Miranda afirma à PF que encontro com banqueiro do Master ocorreu em dezembro, após primeira soltura
Thiago Miranda, dono da agência Mithi, responsável pela contratação de influenciadores digitais para uma ofensiva nas redes sociais contra o Banco Central, prestou depoimento à Polícia Federal na tarde desta terça-feira, 12. Ele afirmou ter combinado a estratégia diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro, em encontro realizado na residência do executivo em São Paulo.
Miranda, também sócio do portal Leo Dias, relatou aos investigadores que a reunião ocorreu em 12 de dezembro de 2025, cerca de duas semanas após a primeira soltura de Vorcaro, e resultou em um plano de R$ 3,5 milhões mensais, voltado à recuperação de imagem do dono do Banco Master.
O plano e sua execução
Segundo apuração da jornalista Malu Gaspar, Miranda apresentou ao banqueiro, naquela reunião, um documento de 63 páginas com uma proposta de “marketing de guerrilha”.
O material elencava temas a serem explorados publicamente, entre eles “Os Erros do BC”, “Renato Dias e o histórico do BC” e “Febraban contra um Banco?”, além de conteúdos voltados a André Esteves, dono do BTG Pactual e desafeto declarado de Vorcaro.
O esquema ficou conhecido internamente como “Projeto DV”. A operação consistia na contratação de perfis com grandes audiências nas redes sociais para repercutir matérias jornalísticas com orientações específicas da agência.
Miranda descreveu o método: sua equipe criava grupos de WhatsApp com cada influenciador e enviava as reportagens acompanhadas de um roteiro com os pontos a destacar. “Em cima disso, a gente pedia pra que eles reproduzissem a sua opinião ou o que eles achavam daquilo que tava sendo comentado. E aí o jornalista trabalhava em cima dessas matérias”, disse o publicitário.
Entre os contratados, figuravam perfis com audiências de milhões de seguidores no Instagram, como Marcelo Rennó, com 1,2 milhão, e Paulo Cardoso, que reúne 4,3 milhões.
Contas como Fofoquei, Alfinetada, Tricotei e Easy Fatos também fizeram parte do esquema, ao lado de veículos digitais e do jornalista Luiz Bacci. Os contratos previam pagamentos entre R$ 30 mil e R$ 1,5 milhão por mês, variando conforme o alcance de cada perfil, com vigência de um mês a um ano.
A defesa do publicitário e os documentos entregues à PF
Miranda defende que o trabalho foi conduzido dentro da legalidade:“Todos os influenciadores tinham contratos, todo o trabalho que a gente fez, tinha os contratos. Então, se fosse uma coisa ilegal, que eu tivesse fazendo ilegalmente ou pra bater no Banco Central, enfim, eu teria feito de outra forma, eu não teria sido tão inocente de ter feito contrato com todos eles. Todos eles emitiram notas fiscais para a minha empresa, então foi tudo muito correto”.
O publicitário entregou à PF oito contratos firmados em dezembro de 2025, bem como os respectivos distratos, todos assinados em janeiro de 2026, nos dias seguintes à divulgação pública do esquema. Os documentos incluíam uma cláusula que vedava ataques à imprensa, a órgãos públicos e aos poderes Legislativo e Judiciário — embora a apresentação interna listasse explicitamente o BC e seus integrantes como alvos temáticos do projeto.
Miranda afirmou ainda que o plano foi encerrado logo após a revelação dos pagamentos: “A gente só dava as matérias para eles comentarem, com briefing”, disse, acrescentando que seu propósito “nunca foi atacar autoridades e instituições”.
Investigação e prisão de Vorcaro
O inquérito em curso na PF apura a contratação dos influenciadores como parte de uma investigação mais ampla sobre as ações de Vorcaro após sua primeira detenção.
Em março de 2026, o banqueiro foi preso novamente por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso Master. Na ocasião, a PF revelou que Vorcaro teria obtido dados sigilosos mediante invasão dos sistemas da própria corporação e do Ministério Público Federal, além de ter planejado intimidações a jornalistas.
Na decisão que determinou a segunda prisão, Mendonça reproduziu trecho de representação policial que apontava o “Projeto DV” como uma operação com o “objetivo de atacar a reputação do Banco Central do Brasil”. Para a PF, o esquema não tinha caráter amador: tratava-se de “profissionais do crime, que atuam de forma coordenada, com a captação ilícita de servidores públicos dos mais altos escalões da república, ao mesmo tempo que buscam influenciar a opinião pública contra os agentes do Estado envolvidos na investigação”.
Vorcaro permanece preso na Superintendência da PF em Brasília, onde negocia um acordo de delação premiada. A defesa do executivo informou que ele não vai se manifestar sobre o caso.
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