Plano da COP30 é uma “provocação”, dizem cientistas
Proposta de transição para combustíveis não poluentes é criticada por pesquisadores
O texto preliminar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que trata do plano de transição para a eliminação dos combustíveis fósseis, parece não ter agradado muita gente. Destinado a criar um mapa de ação para o fim dos poluentes, o documento foi classificado como uma “provocação” pelos pesquisadores presentes no pavilhão da Ciência Planetária.
Os cientistas defendem que os responsáveis pelas negociações demonstraram não compreender a natureza de um roteiro efetivo para o fim das fontes de energia fóssil. Paralelamente, grupos civis alertam que a ausência de aporte financeiro aos países em desenvolvimento inviabilizará a concretização da iniciativa.
Mapa sem direção
O rascunho de negociação, publicado na terça-feira, 18, apresenta opções textuais variadas para o planejamento da transição energética. Uma das alternativas sugere soluções de baixa emissão de carbono, com pouca ou nenhuma dependência dos fósseis.
Outra possibilidade prevê a ausência total de menção ao tema, sinalizando a oposição de algumas nações. Uma terceira via menciona a criação de “uma mesa ministerial de alto nível […] para ajudar países a desenvolver mapas do caminho justos, ordenados e equitativos” citando ideais como a “eliminação e reversão do desmatamento”.
Para os pesquisadores, essa formulação está dissociada de um plano concreto. Os cientistas criticaram a falta de um plano de trabalho substancial, ressaltando a inadequação do conceito apresentado: “Os delegados parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro não é um workshop ou uma reunião ministerial. Um roteiro é um plano de trabalho real, que precisa nos mostrar o caminho, de onde estamos, para onde precisamos chegar – e como chegar lá”.
A ideia de criar um planejamento para o fim dos fósseis veio da ministra Marina Silva (Meio Ambiente) e recebeu o apoio do presidente Lula, mas enfrenta objeções na conferência da ONU, principalmente por parte de países que dependem da exploração de petróleo.
Thelma Krug, presidente do conselho científico da COP30, alertou que as florestas estão passando a emitir carbono, em vez de absorvê-lo da atmosfera. Ela afirmou que a eliminação gradual dos combustíveis fósseis é fundamental, pois, sem isso, as florestas podem não ter capacidade de sobreviver. O líder do Painel Científico da Amazônia, Carlos Nobre, enfatizou que “a COP30 tem uma escolha a fazer: proteger as pessoas e a vida ou proteger a indústria de combustíveis fósseis”.
Quem financia a transição?
Organizações da sociedade civil argumentam que o mapa do caminho corre o risco de se tornar ineficaz se o financiamento climático não for destinado às nações mais pobres.
Mohamed Adow, diretor da ONG PowerShift Africa, apontou que a discussão sobre o roteiro ocorre sem a abordagem dos meios necessários para a transição energética: “Estão discutindo o mapa do caminho sem falar sobre os meios para realmente fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis”. Adow complementou que “os países em desenvolvimento não vão fazer a transição energética com o tanque vazio, nós precisamos de recursos”.
O avanço dos indicadores globais de adaptação climática, considerados o principal objetivo da COP30, também foi criticado por Adow devido à omissão da discussão sobre recursos. Ele disse que um conjunto de medidas sem entrega concreta será o resultado de “um pacote de adaptação sem o respaldo de financiamento para adaptação”.
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