PF aponta acordo de Canella com CV para retirar barricadas
Ex-PM seria responsável por contato direto com chefes do grupo criminoso, entre eles o Doca
A Polícia Federal (PF) apontou que o deputado estadual eleito Márcio Canella (União), preso nesta quinta-feira, 15, mantinha um acordo com chefes do Comando Vermelho (CV) para a retirada de barricadas em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
Segundo as investigações, o intermediário era o capitão da Polícia Militar Alessander Ribeiro Estrella Rosa, preso em fevereiro sob suspeita de negociar com traficantes.
O militar atuava como canal de interlocução entre Canella e lideranças da cúpula do Comando Vermelho, entre elas Edgar Alves de Andrade, o Doca.
Em contrapartida, segundo a PF, a prefeitura e as forças de segurança garantiam a redução das operações policiais e a “subsequente devolução pacífica do pleno controle territorial aos integrantes do tráfico de entorpecentes” após a retirada das barricadas.
Estrella Rosa foi submetido à chamada demissão ex officio, modalidade de desligamento de um oficial da ativa.
Segundo a PF, o ex-PM “agia expressamente como canal de interlocução e intermediário dos interesses da gestão municipal chefiada por Márcio Canella”.
Além de Doca, Estrella Rosa teria contato com José Severino da Silva Júnior, o Soró, apontado como chefe do complexo do Castelar, uma das principais áreas de atuação da facção em Belford Roxo.
“Patrono político”
A apuração também classifica Canella como “patrono político” e “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho (CV).
Canella foi alvo da oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada para desarticular uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro.
Segundo a PF, o parlamentar eleito atuava como um elo entre o poder público e a rede de postos de combustíveis.
A corporação afirma que a organização criminosa integrada por Canella apresenta um “ecletismo econômico e pragmatismo geopolítico que transcendem cisões faccionais”. Segundo os investigadores, o grupo estabeleceu “pontes operacionais com milícias e com o tráfico de drogas para fins de perenidade territorial e blindagem política”.
A PF também aponta que a participação de Canella nesse esquema se traduzia em atos de favorecimento e cooptação.
“A inserção ‘Márcio Canella’ nesse ecossistema paramilitar traduz-se em atos concretos de favorecimento e cooptação. A comprovação dessa alegação foi a nomeação de ex-vereadores sob investigação por liame miliciano ao seu quadro de secretários municipais em Belford Roxo”, diz a corporação.
Ainda segundo a PF, Canella seria destinatário de valores provenientes de crimes cometidos pelas organizações criminosas. A corporação destacou a apreensão de um “vasto acervo de relógios de altíssimo valor, os dois veículos de luxo 0 km/seminovos e as duas motocicletas de grife”. Para os investigadores, os bens “convergem com a hipótese criminal de lavagem de capitais”.
A PF também apontou que os indícios de atuação de Canella “em proveito de organizações criminosas” ganham força com áudios divulgados pela imprensa. Para a corporação, as gravações “descortinam espantoso cenário de simbiose espúria”.
A PF ressaltou diálogos entre um capitão da Polícia Militar e lideranças da cúpula do Comando Vermelho. Segundo a PF, o policial “agia expressamente como canal de interlocução e intermediário dos interesses da gestão municipal chefiada por Canella”.
Operação Unha e Carne
O delegado e ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Amim também foi preso.
“O grupo investigado conta com a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”, disse a PF, em comunicado.
Os agentes cumprem seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou ainda o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro.
Desse total, 96 são postos de combustíveis utilizados para camuflar e legalizar recursos de origem criminosa.
Márcio Canella
Ex-prefeito de Belford Roxo, Canella já havia sido preso em flagrante na sexta fase da Operação Unha e Carne “pelo crime de possuir ou portar arma de fogo de calibre restrito”, segundo a PF.
Na ocasião, os policiais encontrarem um fuzil .556 no interior do veículo do então pré-candidato ao Senado.
Ele era alvo de um mandado de busca e apreensão naquela etapa da Unha e Carne.
A candidatura de Canella ao Senado perdeu força devido à prisão e ele acabou optando por sair candidato a deputado estadual.
Márcio Canella foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro, com 197.178 votos.
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