Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: Vai trabalhar?
“Não quer estudar?”, perguntava o pai. “Então, vai trabalhar.” A juventude era, portanto, muito menos criativa e muito mais ocupada
Não canso de dizer ao estimado leitor, à cara leitora, que sou homem velho. Ora, nem tudo são desvantagens na velhice; algumas coisas melhoram. A memória, é claro, não é uma delas.
Talvez ela me falhe quando me diz que, no ano em que comecei a trabalhar – 1982, a quem interessar possa –, a promessa era a gente se aposentar com meros trinta anos de serviço.
Digo “a promessa” porque o Brasil é assim: tá cheio de coisa que leva o nome de lei mas, na verdade, é só promessa.
Eu tinha 14 anos. Não havia ECA para me proteger, idade mínima para entrar no batente ou ser “jovem aprendiz”.
Te davam uma carteira assinada, um RG, um CPF, um número de PIS e voilà, você já era um profissional: boa sorte, se vira.
Isto, claro, quando você tinha a sorte de começar dentro dos conformes. Muitos moleques daquele tempo começavam na informalidade mesmo, com as mesmas responsabilidades, mas sem lenço nem documentos.
“Não quer estudar?”, perguntava o pai. “Então, vai trabalhar.” A juventude era portanto muito menos criativa e muito mais ocupada.
Você começava, como eu, aos 14 e, tudo dando certo, pararia aos 44 ou 45. Cedo demais, sim, senhor, todo o mundo reconhecia, e raros eram os que paravam tão cedo. Mas, prometia a lei, você poderia parar. Se chegasse lá.
Então a previdência começou a ficar deficitária. Ou seja, ela pagava mais em aposentadorias do que arrecadava dos que estavam na ativa. Havia uma diferença, que aumentava ano a ano, e que o governo tinha que cobrir.
Tirava dinheiro do asfaltamento das estradas (arrãm!), dos hospitais (arrãm!), das escolas (arrãm!) para pagar pensões.
Tava errado. A conta tinha que fechar sozinha. Era preciso dar um jeito na coisa. Claro. O pessoal sabia e compreendia.
Verdade que ninguém se preocupou muito em trazer pra carteira assinada (e seus descontos) os mais de 50% dos trabalhadores que estavam na informalidade.
Não resolveria todo o problema, é claro, mas daria uma bela de uma ajuda.
Não: preferiram antes aumentar a carga de quem já estava no mundo do emprego formal.
Uma reforma aqui, e tome mais uns anos de serviço. Outra reforma ali, e tome uma elevação da idade mínima.
E tome mais uns anos. E outra subida na idade. E um pedágio se você já estiver perto da hora de parar. E a fórmula 95 (depois 96, depois 97, depois…).
O cálculo da pensão é aquela simplicidade maravilhosa: 75% da média ponderada de 64,2% do valor bruto dos últimos novecentos e noventa salários, com redutor por ano bissexto e sextas-feiras dia par em mês terminado com a letra “o”.
Ou algo assim. Valor da pensão: 1025 reais, arredondados para um salário-mínimo. Vê se não gasta tudo em pinga.
Mesmo assim, as contas ainda não fecham. Nem fecharão tão cedo.
Mas que resta senão abaixar a cabeça e pegar o que vier? Pois o mote do governo é o “devo, não nego, pago quanto, quando e como eu quiser”.
Mas aqui é o Brasil, e não há nada ruim que não possa piorar: ainda há os golpes. O último conhecido está aí nas manchetes, na polícia e, só Deus sabe, nos tribunais algum dia.
O rombo é, dizem, de noventa…
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