Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: Distopia em Brasília
Proponho agora ao amigo uma ficção. Um exercício de imaginação em contraponto, ou em complemento, ao que aconteceu no AI-5
Quem é da minha geração conviveu muito com a expressão AI-5, abreviatura do chamado “Ato Institucional número 5”, o documento mais duro de repressão da ditadura militar.
Um dos motivos para a edição desse Ato teve a ver com o Congresso Nacional, que negou ao governo autorização para processar o deputado federal Márcio Moreira Alves.
O tal deputado, em discurso na Câmara, falou cobras e lagartos, rãs e sapos, aranhas e escorpiões dos militares que estavam no poder.
Os militares se ofenderam; seguindo os usos da época e do regime, quiseram prendê-lo e, conforme fosse, arrebentá-lo.
Não contaram com o fato de que a Câmara de 1968 tinha brios e virilidade suficiente para lhes negar esse gostinho.
Brios e virilidade capazes de surpreender não somente os militares de 1968, mas também os brasileiros de 2025, bastante desacostumados pela Casa hodierna a esse tipo de arroubo.
(Não que faltem à Câmara arroubos, arroubadores e arroubados. Pelo contrário: eles abundam. Mas isso é outra conversa.)
Da surpresa, entretanto, os militares passaram à ação: soltaram o Ato e, ato contínuo, fecharam o Congresso Nacional. Assim, estalando os dedos – deles e dos outros.
E foi assim que se fez a história: a ditadura fechou o Congresso, e daí para a frente se fez mais e mais ditadura.
Proponho agora ao amigo uma ficção. Um exercício de imaginação em contraponto, ou em complemento, ao que aconteceu no AI-5.
Uma ficção na qual as arbitrariedades não tenham sido feitas manu militari, com a truculência da farda e a intransigência da espada, mas sim com a autoridade da pena e a sisudez da túnica.
Uma ficção que a gente pode chamar, talvez, de AI-2025. Nela, o Congresso é fechado de forma branca: continua lá, mas à toa, sem função, sem capacidade nem autoridade para fazer nada.
Seus porteiros continuam lá, seus guardas, seus ascensoristas, seus dentistas, cabeleireiros, copeiros, manobristas, até mesmo senadores e deputados.
Os gabinetes continuam ocupados…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)