O silêncio da Secom sobre o sócio de Sidônio
Secretaria de Comunicação da Presidência da República demorou mais de dois meses para não se pronunciar sobre a atuação da Macaco Gordo
Em resposta à Câmara dos Deputados, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) não se manifestou sobre os contratos de publicidade firmados pela Caixa e Embratur com produtora Macaco Gordo, do empresário Francisco Kertész.
Kertész é sócio de Sidônio Palmeira (foto) na M4 Comunicação e Propaganda. Segundo reportagem de O Estado de São Paulo, a Macaco Gordo recebeu em torno de 12 milhões de reais em 2024 e 2025 das duas estatais.
Quando a informação veio a tona, em outubro do ano passado, deputados como Carlos Jordy (PL-RJ) ingressaram com pedidos de informação à Secom para questionar o órgão sobre eventuais conflitos de interesse ou indícios de favorecimento ilício ao próprio ministro.
A resposta da Secom foi lacônica. O órgão não somente se negou a apresentar contratos como argumentou que o assunto não era de competência do órgão.
“Com efeito, o parlamentar solicita informações sobre suposto conflito de interesses em razão da participação do Ministro de Estado em empresas privadas; e contratos firmados pela CAIXA, EMBRATUR e demais órgãos públicos. Nesse sentido, não compete à SECOM a produção, controle ou custódia de dados referentes a contratos firmados por órgãos da Administração Pública Federal vinculados a outros Ministérios, como é o caso da CAIXA, Embratur etc”, disse a Secom.
No pedido apresentado por Carlos Jordy, havia também a solicitação da íntegra dos contratos da Caixa e Embratur com a produtora Macaco Gordo. Os pedidos foram negados sob essa justificativa: que o assunto não era do escopo da Secom.
A apresentação do requerimento de informação ocorreu em 28 de outubro do ano passado; a resposta veio apenas em 30 de dezembro, quase dois meses depois.
Relação antiga
Sidônio e Kertész mantêm uma relação de longa data
Segundo o Estadão, a produtora Macaco Gordo já prestava serviços para a agência de Sidônio, Leiaute, na execução de contratos de publicidade do governo do PT na Bahia, mas não atuava no governo federal.
Em 2025, com Sidônio no cargo de ministro, o dono da Macaco Gordo fez 13 visitas ao Palácio do Planalto entre janeiro e junho, todas para se encontrar com Sidônio.
Segundo ele, os encontros foram “de cunho pessoal, sem que jamais tenha sido tratado das atividades da Macaco Gordo”.
Pagamentos
Os pagamentos das estatais ao sócio de Sidônio ocorreram de forma indireta.
A Caixa e a Embratur mantêm contratos com agências responsáveis por criar campanhas publicitárias sob demanda, contratadas via licitação.
Os recursos são repassados pelas agências às produtoras, que não aparecem nos portais do governo federal como empresas contratadas.
Não há exigência de licitação para contratar essas produtoras, mas as agências devem coletar no mínimo três propostas de preços no mercado para justificar a escolha da mais barata.
Esse procedimento não precisa seguir integralmente a Lei de Licitações, embora a aprovação final das campanhas seja feita pelo órgão público.
Mesmo assim, nem sempre a regra dos orçamentos é cumprida.
De acordo com o Estadão, o maior pagamento recebido pela Macaco Gordo, 2,3 milhões de reais por uma campanha sobre renegociação de dívidas atrasadas da Caixa em 2025, teve um aditamento dispensando a pesquisa de preços.
A agência Calia, responsável pela campanha, inicialmente fez uma cotação para produzir filmes de 30 segundos, e a Macaco Gordo venceu com proposta de 1,6 milhão de reais.
Embratur
Para a Embratur, a produtora realizou uma campanha sobre afroturismo em 2024.
As imagens foram filmadas em pontos turísticos de Salvador. A Macaco Gordo recebeu 1,9 milhão de reais pelo trabalho.
A produtora também executou uma segunda campanha da Embratur em 2024 pela mesma agência, com o tema “projeto realidade virtual Sebrae”, por mais R$ 1,9 milhão.
O que diz Sidônio
Em nota, Sidônio disse na época que “jamais” indicou a contratação da Macaco Gordo para campanhas publicitárias.
“A escolha de qualquer fornecedor terceirizado, pelas agências licitadas, ocorre sem intervenção da Secom. O regramento em vigor obriga que as agências obtenham cotações de pelo menos três empresas capazes de prestar aquele serviço, de modo que a ofertante do menor preço o execute. No processo de aprovação das campanhas, compete à secretaria aprovar a linha conceitual e a alocação dos recursos nos diferentes veículos, à luz dos normativos de mídia técnica consolidados na legislação e nos acórdãos do Tribunal de Contas da União”, diz.
“Antes de assumir o cargo que hoje ocupa, o ministro Sidônio Palmeira afastou-se das funções de gestão e de administração das empresas em que já atuou, em absoluto respeito à legislação vigente e aos princípios éticos da alta administração federal. Desse modo, é descabido, infundado e mentiroso insinuar que tenha havido qualquer ingerência do ministro em favor de empresas ou indivíduos durante qualquer decisão de que ele tenha participado no âmbito do governo federal”, afirma a Secom.
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