O Rio de Janeiro é um retrato do próprio Rio de Janeiro

29.10.2026

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Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 28.08.2020 16:30 comentários
Brasil

O Rio de Janeiro é um retrato do próprio Rio de Janeiro

O afastamento de Wilson Witzel do governo do Rio de Janeiro, determinado pelo Superior Tribunal de Justiça, permite tirar conclusões menos ou mais gerais. A primeira é que talvez fosse recomendável, no plano nacional, não votar ou colocar em cargos importantes homens cujas mulheres são advogadas. Witzel é suspeito  -- na verdade, suspeitíssimo -- de usar o escritório de sua mulher, Helena, para receber propinas de empresas que faturaram com a pandemia...

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O Rio de Janeiro é um retrato do próprio Rio de Janeiro
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O afastamento de Wilson Witzel do governo do Rio de Janeiro, determinado pelo Superior Tribunal de Justiça, permite tirar conclusões menos ou mais gerais. A primeira é que talvez fosse recomendável, no plano nacional, não votar ou colocar em cargos importantes homens cujas mulheres são advogadas. Witzel é suspeito  — na verdade, suspeitíssimo — de usar o escritório de sua mulher, Helena, para receber propinas de empresas que faturaram com a pandemia. O esquema é prosaico: a empresa contrata a mulher advogada do poderoso de plantão e lhe paga “honorários” altíssimos por serviços que não ocorreram.

A segunda conclusão é que a lição da Lava Jato parece não ter surtido efeito nenhum em políticos antigos ou neófitos: para suceder a quadrilha do maior ladrão da história da política fluminense, Sérgio Cabral, o atual governador afastado usou do discurso moralizante da operação para eleger-se e, uma vez instalado no Palácio Guanabara, criar o seu próprio esquema de corrupção, de acordo com a denúncia que motivou o seu afastamento. Ou seja, a Lava Jato teria servido apenas para catapultar mais um meliante ao poder.

A terceira conclusão é que o Rio de Janeiro consegue ter, de longe, os piores governantes do Brasil, um feito notável, convenhamos, haja vista a podridão geral da paisagem. Desde a redemocratização, nada menos do que cinco governadores do Rio de Janeiro foram presos: Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. E agora Witzel poderá seguir o mesmo caminho da cana. É um recorde que, a prosseguir a tendência, só o próprio Rio de Janeiro será capaz de bater.

Por quê?

Costuma-se dizer que  a cidade do Rio de Janeiro é um retrato concentrado do Brasil. É verdade parcial. O Rio de Janeiro é um retrato concentrado do próprio Rio de Janeiro, eis a verdade por inteiro. Nasceu praticamente como capital do Brasil e sobrevive como capital de um estado que não passa de um poço de petróleo cercado de municípios esquálidos por todos os lados, apesar do PIB e em contraste com São Paulo e Minas Gerais. A cidade do Rio teve alguma chance quando foi transformada em estado da Guanabara, logo depois de perder a condição de capital federal. Como as arrecadações municipal e estadual confluíam para a própria cidade, os cariocas não tinham de dividir receita com ninguém. O Rio de Janeiro nunca foi paraíso, mas era purgatório remediado.

O estado da Guanabara deixou de existir na década de 70, porque os militares não suportavam mais a ideia de ela ser o único estado brasileiro em que a Arena não tinha o poder. A maioria dos cariocas sempre votou no MDB, o único partido de oposição permitido. Com uma canetada em 1974, o general-presidente Ernesto Geisel decretou a fusão de Guanabara e Rio de Janeiro, concretizada em 1975. O estado do Rio de Janeiro passou a ser o caminhão velho e enguiçado que os cariocas têm de empurrar serra acima.

Empobrecida com a fusão, a cidade do Rio de Janeiro teve as portas abertas para o mais nefasto populismo, depois da redemocratização, com a ascensão de Leonel Brizola. Virou bagunça continuada. Favela deixou de ser problema e virou solução (é uma ironia). O tecido urbanístico degradou-se ainda mais. A sua Assembléia Legislativa foi tomada de assalto por forasteiros que se associaram aos piores nativos. O tráfico de drogas floresceu à medida que a cidade perdeu importância econômica — e, no seu rastro, as milícias. A educação pública, que era boa na comparação nacional, foi para o brejo juntamente com o resto, ajudando a aumentar a massa de manobra de uma gente horrorosa.

Todos esses governadores corruptos são consequência e causa da decadência de um Rio de Janeiro que teve roubada a sua vocação para ser a capital brasileira ou, no mínimo, a capital de um estado que era ela própria. Quanto ao estado do Rio original, basta atravessar a ponte. Também continua lindo, coitado.

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