O que é o tecnécio-99, material radioativo vazado no Ipen
Trabalhadores foram expostos durante procedimento de rotina; autoridade reguladora abre prazo para prestação de contas
Dois funcionários do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), localizado no campus da USP (Universidade de São Paulo), entraram em contato com traços do elemento radioativo tecnécio-99.
O episódio ocorreu durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave — equipamento utilizado na produção de radiofármacos — e foi confirmado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) nesta quinta-feira, 11. Exames realizados nos dois trabalhadores não identificaram contaminação interna.
O que é e para que serve o material
O tecnécio — representado pelo símbolo Tc na tabela periódica — é um metal de coloração prateada com propriedades radioativas.
De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), esse elemento ocorre na natureza em quantidades ínfimas na crosta terrestre, sendo obtido predominantemente por meio de processos laboratoriais.
O isótopo tecnécio-99 surge como resultado do funcionamento de reatores nucleares e também como derivado de detonações de armas atômicas.
Já o tecnécio-99m corresponde a uma variante de curta duração do Tc-99, empregada como instrumento de diagnóstico na medicina. Por ter meia-vida reduzida, ele se dissipa rapidamente tanto no organismo quanto no ambiente.
Trata-se do isótopo radioativo mais amplamente usado no mundo para fins médicos, funcionando como marcador em exames de diagnóstico por imagem.
Na prática clínica, a substância é administrada por injeção nos pacientes, e equipamentos especializados captam a radiação emitida pelo tecnécio no interior do corpo para gerar imagens detalhadas.
O que aconteceu
O incidente teve lugar no Centro de Radiofarmácia do Ipen, setor responsável pelo desenvolvimento e distribuição de medicamentos radioativos empregados em diagnósticos por imagem e no tratamento de tumores.
Os dois funcionários, classificados como Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs), foram submetidos a exames de Contador de Corpo Inteiro para avaliar a absorção do material.
Segundo a CNEN, “as contagens detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. A contaminação ficou restrita à área controlada, do Centro de Radiofarmácia do Instituto”.
O caso veio a público após o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de São Paulo (Sindsef-SP) e a Associação dos Servidores do Ipen (Assipen) encaminharem pedido formal de informações à direção do instituto e à CNEN.
Regulação e próximos passos
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) informou que a unidade de Radiofarmácia do Ipen dispõe de autorização de operação vigente.
Como parte do acompanhamento regulatório, o órgão emitiu notificação com prazo até 18 de junho de 2026 para que o instituto apresente documentação e responda às exigências formuladas.
De acordo com informações da ANSN, “a notificação garante à instalação o exercício do contraditório e da ampla defesa, sendo que eventuais medidas adicionais dependerão da análise técnica das informações e documentos apresentados pelo Ipen”.
Segundo a BBC, o relatório interno sobre o ocorrido foi encaminhado à ANSN para análise. O Ipen abastece 430 hospitais e clínicas em todo o Brasil com radiofármacos, volume que sustenta cerca de 2 milhões de procedimentos médicos por ano, entre diagnósticos e tratamentos oncológicos.
Leia também: Investigação apura contaminação radioativa no Ipen, na USP
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