O lixão onde milhares trabalham sem salário e dependem do que conseguem arrancar das montanhas de resíduos
O lixão urbano funciona como uma cidade paralela onde milhares de pessoas vivem daquilo que outros descartam e enfrentam riscos diários para sobreviver.
No coração da Cidade da Guatemala existe um lugar que a maioria das pessoas prefere ignorar. Na zona 3, um dos maiores lixões urbanos da América Central funciona como cidade paralela, com rotina, hierarquia, economia própria e milhares de famílias que tiram dali seu sustento. Para quem entra, o cheiro, a fumaça e as montanhas de resíduos formam um cenário que parece fim do mundo. Para quem trabalha ali, é apenas mais um dia de luta.
Como funciona a vida dentro do lixão da zona 3?
Estima-se que cerca de 4.000 pessoas trabalham no local, incluindo aproximadamente 100 menores. Não há salário fixo, carteira assinada ou qualquer estrutura formal. O dinheiro vem exclusivamente do que cada catador consegue encontrar, separar e vender no dia. Em dias bons, um trabalhador pode chegar a 400 quetzais. Em dias ruins, vai para casa com muito menos.
Um catador que trabalha ali há mais de 50 anos resume a lógica do lugar com uma frase simples: “Aqui ninguém me paga. O que junto é o que vou vender.” Para ele, o lixão oferece algo que o mercado formal nunca deu: liberdade para trabalhar sem depender da idade.

O que os catadores procuram entre toneladas de lixo?
O trabalho de separação é minucioso e exige conhecimento de mercado. Os catadores sabem exatamente o que tem valor e o que não tem. Entre os materiais mais buscados estão:
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Quais são os perigos reais de trabalhar ali?
O lixão da zona 3 é classificado como zona vermelha pelas autoridades locais. O risco vem de três frentes principais: a contaminação constante por resíduos tóxicos, os desabamentos de lixo acumulado e a possível presença de gangues que exercem algum tipo de controle sobre o espaço. Em 2005, um episódio ficou conhecido como o “Milagre do lixão”, quando um menino foi encontrado vivo no local em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas.
O perigo mais documentado, porém, são os deslizamentos. Há registros de um desabamento em que 46 pessoas foram soterradas vivas por toneladas de lixo que cederam de uma vez. Ainda assim, no dia seguinte, os sobreviventes voltaram ao trabalho. Não havia alternativa.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Zazza el italiano mostrando os perigos de trabalhar entre o lixo.
Quem são as pessoas que vivem entre o lixo?
Um jovem de 18 anos entrevistado dentro do lixão começa a trabalhar às 7h da manhã e muitas vezes só sai às 19h. Ele ajuda a pagar aluguel, luz e água da família. Poderia ter seguido outro caminho: relata que já foi convidado a entrar em atividades criminosas. Recusou. “Prefiro estar no lixo a tirar o dinheiro das pessoas”, disse.
Essa escolha não é simples num país onde a Guatemala figura entre os de maior desigualdade da América Latina, com mais de 50% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. Para esses trabalhadores, o lixão não é o fundo do poço. É a alternativa que existe.
O que o lixão da Guatemala revela sobre o mundo?
Lixões como o da zona 3 existem em dezenas de países em desenvolvimento e concentram um problema que as cidades costumam esconder: o lixo produzido por uns é o sustento de outros. Só no mundo, estima-se que mais de 15 milhões de pessoas vivam da catação informal de resíduos, segundo dados do Banco Mundial. A maioria trabalha sem proteção, sem reconhecimento e sem acesso a serviços básicos.
O jovem de 18 anos que trabalha no lixão tem um sonho: estudar direito, ajudar a família e ter uma casa nova. Entre uma pá de lixo e outra, ele guarda esse plano. O lixão da zona 3 não é só um problema urbano. É um espelho do que sociedades inteiras preferem não enxergar, mas que não para de crescer.
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