Morre aos 92 anos Niéde Guidon, ícone da arqueologia brasileira
Niède Guidon, uma das figuras mais proeminentes da arqueologia brasileira, faleceu aos 92 anos, deixando um legado inestimável
Niède Guidon, uma das figuras mais proeminentes da arqueologia brasileira, faleceu aos 92 anos no dia 4 de junho, deixando um legado inestimável para a ciência e a preservação do patrimônio histórico. Sua contribuição mais notável foi a descoberta e preservação do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, que se tornou um marco na compreensão do povoamento das Américas. Graduada em história natural pela Universidade de São Paulo (USP) em 1959, Guidon desafiou teorias estabelecidas sobre a presença de Homo sapiens na América Latina.
Após sua graduação, Niède Guidon trabalhou como professora e no Museu Paulista, que mais tarde foi incorporado à USP. Com a falta de cursos de arqueologia no Brasil naquela época, ela buscou especialização na Universidade Sorbonne, em Paris. Durante a Ditadura Militar no Brasil, Guidon retornou à França, onde completou seu doutorado e pós-doutorado, continuando sua carreira acadêmica e de pesquisa.
Como Niède Guidon transformou a arqueologia no Brasil?
Patrocinada pelo governo francês, Niède Guidon iniciou uma pesquisa no semiárido nordestino do Brasil, focando nas pinturas rupestres da região. Essa pesquisa culminou na criação do Parque Nacional Serra da Capivara em 1979, que hoje é reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. O parque abriga mais de 1.400 sítios pré-históricos, tornando-se o maior complexo desse tipo nas Américas.
Uma das descobertas mais significativas de Guidon foi uma amostra de carvão datada de 32 mil anos, sugerindo que humanos habitaram a região muito antes do que se acreditava anteriormente. Essa descoberta desafiou a teoria predominante de que os primeiros Homo sapiens chegaram às Américas há cerca de 13 mil anos, mudando a perspectiva científica sobre o povoamento do continente.
Quais foram as contribuições além da Serra da Capivara?
Além de suas pesquisas arqueológicas, Niède Guidon fundou o Museu do Homem Americano e a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), instituições dedicadas à preservação e estudo do patrimônio cultural da região. Ela também foi uma defensora incansável da proteção da Caatinga e das comunidades locais de São Raimundo Nonato, no Piauí.
Guidon propôs a teoria de que o homem moderno poderia ter saído da África e cruzado o Atlântico pulando de ilha em ilha há cerca de 100 mil anos. Essa hipótese, embora controversa, abriu novas discussões sobre as rotas de migração humana e a ocupação das Américas.
O impacto duradouro de Niède Guidon na ciência e na cultura
O trabalho de Niède Guidon não apenas revolucionou a arqueologia no Brasil, mas também destacou a importância da preservação do patrimônio cultural. Sua dedicação à pesquisa e à educação inspirou gerações de arqueólogos e cientistas, e seu legado continua a influenciar estudos sobre a pré-história das Américas.
O Parque Nacional Serra da Capivara permanece como um testemunho de sua visão e determinação, atraindo pesquisadores e turistas de todo o mundo. A obra de Guidon é um lembrete poderoso do valor da ciência na compreensão e preservação da história humana.