Maristela Basso na Crusoé: Quando as urnas falam
O voto como espelho do inconsciente social: entre o desejo, o ressentimento e os limites da democracia
Há momentos em que as urnas falam mais do que os políticos. E o que dizem nem sempre coincide com aquilo que os vencedores comemoram, os derrotados lamentam ou os analistas procuram explicar.
Uma eleição não é apenas a soma de votos individuais. É também uma manifestação coletiva de desejos, medos, frustrações, esperanças e ressentimentos. Nas urnas, uma sociedade não escolhe somente seus governantes. Revela algo de si mesma. E nem sempre gosta do que vê.
Talvez a questão mais inquietante seja esta: uma sociedade sabe realmente o que está dizendo quando vota?
Freud nos ensinou que o sujeito não é inteiramente senhor de sua própria consciência. Entre aquilo que acreditamos desejar e aquilo que efetivamente nos move, existe um território de conflitos, identificações, fantasias e impulsos que escapam à razão.
Por que seria diferente na política?
O eleitor não entra na cabine de votação despojado de sua história emocional. Leva consigo suas experiências de humilhação, suas necessidades de reconhecimento, suas perdas, suas expectativas e, frequentemente, uma indignação que não encontrou outro lugar para se expressar.
O voto pode ser uma escolha racional, ponderada e consciente. Mas também pode representar um protesto, uma identificação, um pedido de proteção ou uma tentativa simbólica de reparação.
Às vezes, vota-se em alguém. Outras vezes, contra alguma coisa. E há ocasiões em que se vota menos pelo futuro que se deseja construir do que pelo passado que não se consegue superar.
É nesse ponto que a política encontra a psicanálise.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud examinou os mecanismos pelos quais os indivíduos se identificam com líderes e grupos, encontrando na pertença coletiva uma forma de segurança e reconhecimento.
A política democrática não está imune a esses mecanismos. O pertencimento pode fortalecer a participação pública, mas também pode converter adversários em inimigos e divergências em ameaças à própria identidade.
Quando isso acontece, já não discutimos apenas ideias, projetos ou programas de governo. Defendemos imagens de nós mesmos.
O outro deixa de…
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