Maristela Basso na Crusoé: Nós, os outros
Uma conversa entre Descartes, Espinosa e Sartre sobre o Brasil de hoje
Imagino uma conversa impossível.
Descartes, Espinosa e Sartre sentados diante do Brasil de hoje. Não lhes daria jornais nem lhes explicaria quem está de um lado ou de outro. Não seria necessário.
Bastaria que observassem.
O ruído. As certezas. A indignação permanente. A incapacidade de recuar. A transformação de toda divergência em combate moral. Instituições falando cada vez mais alto. Autoridades convencidas de suas próprias razões.
Cidadãos separados em campos que parecem já não compartilhar sequer a mesma realidade.
Descartes
Talvez Descartes fosse o primeiro a se inquietar.
O homem que fez da dúvida o ponto de partida da razão provavelmente estranharia uma sociedade na qual todos parecem ter tanta certeza.
Seu método nasceu de um gesto extraordinariamente simples: desconfiar.
Não apenas do outro. De si mesmo.
É justamente essa segunda dúvida que parece ter desaparecido entre nós.
Duvidamos das intenções dos adversários, das decisões dos tribunais, das notícias, das instituições, das eleições, das pesquisas, dos especialistas. Mas raramente duvidamos das nossas próprias convicções.
Descartes talvez nos perguntasse: como pode uma sociedade continuar racional quando cada um considera evidente aquilo que apenas confirma o que já pensava?
Espinosa
Espinosa provavelmente observaria outra coisa.
As paixões.
Medo, ressentimento, desejo de punição, humilhação do adversário, necessidade de pertencimento.
Uma sociedade pode possuir Constituição, tribunais, Parlamento e eleições e, ainda assim, ser progressivamente governada por afetos que diminuem sua capacidade de agir racionalmente.
Espinosa chamaria muitos deles de paixões tristes.
E nos lembraria de algo que esquecemos: virtude é potência.
Não potência no sentido de dominar o outro. Exatamente o contrário.
Potente é aquele que consegue agir sem ser escravo de suas paixões. A verdadeira força não está em destruir o adversário, mas em não precisar destruí-lo para existir.
Essa talvez seja uma das grandes confusões brasileiras do presente.
Passamos a confundir força com agressividade, autoridade com infalibilidade, convicção com intolerância e virtude com a certeza de pertencer ao lado correto da história.
Quanto…
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