Mais gente precisa defender a Lava Jato Mais gente precisa defender a Lava Jato
O Antagonista

Mais gente precisa defender a Lava Jato

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 20.03.2022 15:50 comentários
Brasil

Mais gente precisa defender a Lava Jato

A "Folha de S. Paulo" publicou neste domingo uma entrevista importante com o diretor da Transparência Internacional no Brasil, o economista Bruno Brandão. Trata-se de uma voz independente fazendo aquilo que quase ninguém tem feito: um contraponto aos críticos hiperativos da Lava Jato, políticos e advogados que enriqueceram defendendo políticos, que tentam emplacar a tese de que a operação nada mais foi do que um projeto de poder de Sergio Moro e alguns procuradores...

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 20.03.2022 15:50 comentários 0
Mais gente precisa defender a Lava Jato
Foto: STF

A “Folha de S. Paulo” publicou neste domingo uma entrevista importante com o diretor da Transparência Internacional no Brasil, o economista Bruno Brandão. Trata-se de uma voz independente fazendo aquilo que quase ninguém tem feito: um contraponto aos críticos hiperativos da Lava Jato, políticos e advogados que enriqueceram defendendo políticos, que tentam emplacar a tese de que a operação nada mais foi do que um projeto de poder de Sergio Moro e alguns procuradores.

Sobre as motivações do núcleo original de protagonistas da Lava Jato, Brandão lembra que eram todos integrantes do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal que já tinham larga experiência e muitas frustrações no combate aos crimes de colarinho branco: “são agentes que dedicaram suas vidas a essa causa e experimentaram a realidade do nosso sistema de impunidade”, diz o economista.

Nunca é demais lembrar que o alvo original da Lava Jato não foi nenhum político, mas um doleiro, Alberto Youssef, que já era velho conhecido da polícia federal. Quando foram atrás de Youssef, e mesmo quando descobriram, meio que por acaso, que ele tinha ligações com um ex-diretor da Petrobras, os investigadores não esperavam encontrar um esquema de corrupção que envolvia diversos partidos e as maiores empreiteiras do país. Imaginavam estar na trilha de um caso clássico de lavagem de dinheiro

Sobre a “politização” da Lava Jato, Brandão faz uma observação certeira: “a operação parece ter feito cálculos políticos em alguns de seus movimentos porque as defesas eram políticas”. De fato, não existe lugar comum maior entre donos de mandato, mesmo aqueles que são apanhados com dinheiro em uma mala ou enfiado na cueca, do que dizer que estão sendo alvo de uma “armação de inimigos políticos”. Ao mesmo tempo, eles vão buscar abrigo no corporativismo, em que amigos e inimigos se irmanam em favor da blindagem de todos. Foi assim com a Lava Jato desde o instante em que ela descobriu o primeiro vínculo entre o dinheiro da Petrobras e os chefões de partidos políticos.

Pode-se discutir se a resposta da operação às manobras de seus alvos políticos foi a melhor a longo prazo, do ponto de vista institucional. Brandão acha que os cálculos políticos levaram a “grandes erros”. O que não se pode dizer é que a motivação política estava presente no momento em que um inquérito sobre Youssef foi retirado de uma pilha empoeirada de papéis, dando origem à Lava Jato.  

O outro ponto fundamental da entrevista do diretor da Transparência Internacional é que a resposta do Legislativo à Lava Jato (e eu acrescentaria aqui, também a resposta do STF, especialmente sua Segunda Turma (foto)), não foi no sentido de aprimorar as ferramentas de combate à corrupção. “O que nós vimos não foi uma correção de erros, foi um desmanche”, diz Brandão. 

Ele faz uma comparação perfeita entre a reação do meio empresarial e a do meio político à Lava Jato. O primeiro, tratou de criar mecanismos de conformidade, ou seja, adaptou suas regras internas para tornar a corrupção mais difícil de ser praticada e mais custosa para os desonestos. O segundo, aprovou uma nova Lei de Improbidade e ainda pretende aprovar um novo Código Eleitoral – ambos mais brandos, mais lenientes com políticos e partidos. “Os partidos não mudaram suas práticas, a democracia interna, a transparência. Ao contrário: passaram leis que reduziram ainda os controles sobre a utilização de recursos públicos”, diz Brandão. A resistência do Congresso a revelar o caminho do dinheiro gasto nas emendas de relator fala por si própria. 

Há pouco na entrevista sobre o Judiciário. Mas o discurso dos advogados do Clube do Charuto sobre a Lava Jato é desonesto – e a maneira como vários juízes do STF deixam que esse discurso se propague é vergonhosa. 

A Lava Jato usou leis sobre corrupção que haviam sido aprovadas pouco tempo antes, e sempre leva tempo para que o uso de novos instrumentos jurídicos assuma formas estáveis. O tamanho da operação criou situações sobre as quais não havia precedentes, e muitos entendimentos sobre regras processuais foram mudando com o carro em movimento. Mas tudo que resultou de hesitações, justificáveis ou não, do Supremo, hoje aparece como “culpa” de Moro e do MPF. 

A questão da competência da 13a. Vara de Curitiba é um exemplo disso: o STF levou sete anos para decidir que Moro não deveria ter julgado certos casos, mas nenhum dos ministros faz qualquer objeção quando os advogados de Lula enchem a boca para dizer que ele foi condenado por um juiz “incompetente”. É como se STF tivesse sido enganado ou induzido ao erro pelo magistrado ardiloso da primeira instância. 

Isso precisa acabar, e nem é por causa de Sergio Moro. É para que as coisas voltem a ter sua devida proporção: os instrumentos de combate à corrupção deixem de ser vistos como inimigos do desenvolvimento do país (como quer o ministro Ricardo Lewandowski) e a própria corrupção, como invenção de uma trupe de Curitiba. Mais gente precisa falar como Bruno Brandão fez hoje. 

 

Esportes

Eurocopa 2024: Espanha vence Itália e avança para oitavas

20.06.2024 18:30 3 minutos de leitura
Visualizar

Onda de calor extremo segue matando centenas de pessoas

Visualizar

Valverde fala das expectativas para Mbappé no Real Madrid

Visualizar

Bradley Cooper Raspa metade da barba

Visualizar

Eurocopa 2024: Inglaterra decepciona e só empata com a Dinamarca

Visualizar

Palmeiras acerta contratação de Augustín Giay, jogador da argentina

Visualizar

Tags relacionadas

2ª Turma do STF corrupção eleições de 2022 Grupo Prerrogativas Lava Jato Sergio Moro STF Transparência Internacional
< Notícia Anterior

Ucrânia anuncia morte de vice-comandante russo no Mar Negro

20.03.2022 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Em Moscou, ucranianos são interrogados por agentes russos

20.03.2022 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Notícias relacionadas

Os 12 meses das queimadas do "amor" no Pantanal

Os 12 meses das queimadas do "amor" no Pantanal

20.06.2024 17:43 4 minutos de leitura
Visualizar notícia
Aeroporto de Caxias recebe autorização para receber voos internacionais

Aeroporto de Caxias recebe autorização para receber voos internacionais

20.06.2024 17:38 1 minuto de leitura
Visualizar notícia
Zé Felipe se diverte sendo maquiado pela filha caçula durante uma brincadeira

Zé Felipe se diverte sendo maquiado pela filha caçula durante uma brincadeira

20.06.2024 17:35 3 minutos de leitura
Visualizar notícia
Cardume com 150 tubarões é flagrado no litoral de São Paulo

Cardume com 150 tubarões é flagrado no litoral de São Paulo

20.06.2024 17:24 3 minutos de leitura
Visualizar notícia

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.