Leonardo Barreto na Crusoé: Governar é distribuir
Em um modelo em que tudo se resume a dinheiro, não há treinamento melhor para se tornar líder do que a militância sindical
Deveria haver uma nova vertente teórica na ciência política para definir o modelo de governança, muito familiar aos brasileiros, baseado quase que exclusivamente na distribuição dos pedaços do Tesouro para grupos de diversas naturezas que habitam a sociedade. Eu o chamaria de “democracia pecuniária”.
No dicionário, pecuniário é tudo que é “relativo a dinheiro”.
Nesse modelo, a disputa política se dá para decidir quem tem a chave do cofre.
Ele é disputado por empresas que desejam incentivos, por segmentos do funcionalismo público que buscam salários e privilégios fora dos limites legais, por ativistas sociais que cavam fontes para financiar suas causas, por parlamentares que precisam contemplar seus municípios, por governantes que precisam de programas socais para formar clientelas, por igrejas que não querem pagar IPTU e assim por diante.
Em um modelo em que tudo se resume a dinheiro, ou sua alocação a partir de critérios definidos em barganhas políticas, não há treinamento melhor para se tornar líder do que a militância sindical, na qual a luta principal é para aumentar salários. Você vale o quanto de aumento você consegue.
Essa percepção sobre como funciona o sistema político – e, talvez, para o que ele serve – explica bem o nível de sucesso que o presidente Lula tem tanto do ponto de vista da legitimidade, dando aos grupos o que eles querem, quanto da governabilidade, mesmo em situações nas quais seu partido é minoritário.
Lula não faz outra coisa que não seja contemplar grupos e tentar criar equilíbrios a partir disso. Uma arte.
Mesmo dizendo-se refém do Congresso, o presidente receberá de deputados e senadores 256 bilhões de reais para distribuir apenas em 2026. Um resultado espetacular.
O dinheiro vem para a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, desconto de conta de luz, vale-gás e outros programas sociais.
No campo das isenções fiscais para empresas, estima-se que o gasto anual é de mais de 800 bilhões de reais ao ano, quase três vezes o que é colocado no social.
Não é por acaso que a…
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