Leonardo Barreto na Crusoé: Conversando com o diabo
Sem a maldade, segundo ele, a história acaba, a roda não gira e sacrificar milhares ao inferno é o mecanismo encontrado para forjar um único homem bom
Em um momento de desespero, buscando entender o tamanho da sua responsabilidade no assassinato do próprio pai, considerando que suas opiniões amorais sobre a humanidade podem ter induzido o empregado Smerdiakov a cometer o crime, Ivan Karamazov, personagem de Fiodor Dostoievski, recebe o diabo para uma conversa.
Caracterizado como um aristocrata falido, que vive de favores na casa de alguém e que Ivan chama o tempo todo de “parasita”, o diabo se diverte não em fazer maldades. Mas em alimentar a dúvida no humano sobre a sua existência ou não e mesmo sobre a presença de Deus, convicção que ele mesmo diz não ter.
A dúvida é cruel até para o próprio diabo e ele diz que seu sonho seria reencarnar como uma comerciante russa “de sete arrobas” que acende velas na igreja para demonstrar seu fervor. Não questionar é uma benção tranquila, sugere ele.
Ivan não sabe se aquele diabo existe objetivamente ou se é parte da sua imaginação. Ele inicia o diálogo acreditando que tudo é obra do seu pensamento, mas termina absolutamente certo de que aquela visita é real.
Mas ele não muda de posição em razão de qualquer prova concreta que o diabo o tenha apresentado.
O que incentiva a transformação em Ivan é o reconhecimento de que ele não pode conviver com a ideia de que aquele aristocrata decadente nada mais é do que a personificação das suas partes más e abjetas.
Portanto, acreditar na existência objetiva do diabo pode até ser um alívio porque isso cria a ilusão (ou não) de que a maldade não é humana, de que não é uma propriedade do indivíduo, de que ela é exterior a nós.
O diabo segue reclamando de certas modernizações que substituiu os castigos tradicionais contra os pecadores por outros sofrimentos mais civilizados, como a “consciência pesada”. Ora, ele diz, como fazer pagar então aqueles não têm consciência, cada vez mais numerosos?
No ápice da conversa, o diabo diz que se emocionou com a ascensão de Cristo ao céu e ficou com um “Hosana” entalado na garganta.
Mas se conteve em razão de compreender…
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