Justiça condena humorista Léo Lins a 8 anos de prisão
Cabe recurso contra decisão de primeira instância
A juíza federal substituta Barbara de Lima Iseppi, da 3ª Vara Criminal Federal de São Paulo, condenou o humorista Léo Lins (foto) a uma pena de 8 anos, 3 meses e 9 dias de prisão, que “deverá ser cumprida inicialmente no regime fechado”, por “praticar e incitar preconceito” contra minorias e vulneráveis durante apresentação publicada em plataforma de streaming e distribuída em redes sociais.
Ela determinou também o pagamento de duzentos salários mínimos, no valor total de 303.600,00 reais, “a título de indenização por danos morais coletivos”.
A decisão de primeira instância – obtida por O Antagonista – foi assinada na sexta-feira passada, 30 de maio, e anunciada pelo Ministério Público Federal nesta terça, 3 de junho. Cabe recurso.
A denúncia havia sido feita pelo próprio MPF, com base no vídeo denominado “Léo Lins – PERTUBARDOR (show pode ser EXCLUÍDO em breve)”, consistente na gravação de um show de stand up comedy realizado pelo humorista em Curitiba, em junho de 2022, e que contava com cerca de 3 milhões visualizações quando teve a sua exibição no YouTube suspensa em agosto de 2023.
Segundo a juíza, “as falas do réu consistem em conteúdo que configura os crimes previstos no artigo 20, §2º e 2º-A da Lei n. 7.716/89, assim como no artigo 88 da Lei n. 13.146/2015, pois causam constrangimento, humilhação, vergonha, medo e exposição indevida a pessoas negras, idosas, gordas, portadores do vírus HIV, homossexuais, judeus, indígenas, anões, com deficiências física, intelectuais, nordestinos e moradores de rua, o que consiste no verbo do tipo de ‘praticar’ e ‘incitar’ preconceito”.
O que é preconceito?
“Preconceito”, segundo a decisão, “é o conceito ou opinião formados antecipadamente, sem levar em conta o fato que os conteste e, por extensão, suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos religiões, etc. Mais especificamente, pode ser tido como sentimento em relação a uma raça ou um povo, decorrente da adoção de crenças racistas.”
O que dizem as leis?
Eis os artigos usados para condenar Léo Lins:
“Lei n. 7.716/89
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
§2º. Se qualquer dos crimes previstos neste artigo for cometido por intermédio dos meios de comunicação social, de publicação em redes sociais, da rede mundial de computadores ou de publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 14.532, de 2023)
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa”
§ 2º-A Se qualquer dos crimes previstos neste artigo for cometido no contexto de atividades esportivas, religiosas, artísticas ou culturais destinadas ao público: (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023)
Pena: reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e proibição de frequência, por 3 (três) anos, a locais destinados a práticas esportivas, artísticas ou culturais destinadas ao público, conforme o caso. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023).
Lei n. 13.146/2015
Art. 88. Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência:
Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.
§ 1º Aumenta-se a pena em 1/3 (um terço) se a vítima encontrar-se sob cuidado e responsabilidade do agente.
§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput deste artigo é cometido por intermédio de meios de comunicação social ou de publicação de qualquer natureza:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”
Quais foram os argumentos da juíza para condenar Léo Lins?
A decisão da juíza Barbara de Lima Iseppi cita e interpreta uma série de falas do humorista Léo Lins em seu show de comédia.
Eis alguns exemplos de sua argumentação:
1.
“No intervalo entre 11m59s e 12m45s, o réu incita a discriminação e preconceito em razão de procedência nacional ou regional, ridicularizando nordestinos ao fazer movimentos corporais simulando o que chama de ‘aparência primitiva’:
‘Você pegar voo pro Nordeste é uma experiência, porque tem umas pessoas com aparência primitiva. Esse cara saiu de um livro de geografia, que negócio é esse? Ele anda meio de lado assim. A terceira dimensão não chegou na terra dele, ele anda em 2D Para embarcar tem que virar o corpo. Começou o embarque. É um caranguejo? Que negócio é esse, cara? A roupa também eles usam diferente. A calça eles usam lá em cima. E quanto mais sobe a calça mais desce o pescoço. O cinto vira uma coleira’.
Após, aos 48:11s menospreza os nordestinos ao afirmar que não seriam sequer seres humanos: ‘tem ser humano que não é 100% humano! O nordestino do avião? 72%’.”
2.
“Nos trechos a seguir, o réu pratica discriminação ao fazer declarações depreciativas e injuriosas contra as pessoas idosas, gordas, portadoras do vírus HIV, homossexuais, judeus e negros, inclusive exaltando o período escravagista como época em que negros gozavam de privilégios, conforme os excertos abaixo:
‘Eu tô fazendo várias piadas de velho agora e vocês tão rindo tranquilamente, sem pensar se é certo ou errado, sem medo de julgamento. Por quê? Porque hoje ninguém defende o velho. Já ouviu falar na militância da velhofobia? Se o velho falar: ‘Ai, eu não gostei dessa piada’. Ah, é mesmo? Foda-se!! Cê já tá quase morrendo, reclama direto com Deus! Ninguém defende o velho. A não ser que seja um velho gordo! Ou velho gordo e gay. Ihhh…. O velho gordo, gay e negro! Iiiiihhhh…. Se for cadeirante também eu já me entrego. Pode levar, doutor, pode levar’ (nesse momento, estende os braços para frente, como se os oferecesse para ser algemado). ‘Aí já é racismo, gordofobia.’
‘Tem algumas palavras que hoje a gente tá acostumado mas que quando surgiram eu estranhei muito. E gordofobia foi uma. Eu estranhei muito. Porque fobia é medo. Medo de gordo? Se tem uma coisa que eu não tenho medo é gordo. A não ser que eu fosse feito de Nutella. Eu ia ficar tenso na rua. Tô no celular lambem minha bunda, ei o que é isso? Preciso me esconder, onde é que tem uma academia aqui? Pega dois halter, sai daqui gordo’ (faz o sinal da cruz). ‘Tempero de salada, em nome do pai, do filho. Cai no gordo, queima ai salada!’
‘Tem uma situação que eu tenho medo de gordo. A gente já tá íntimo. Vou me abrir com vocês. Seguinte. Você tem uma viagem longa pra fazer. Você tá lá na poltrona 38. Tá vazio do seu lado. Entenderam onde eu vou chegar, né? Você pensa: porra, me dei bem! Vou viajar tranquilinho, vou até me espichar. De repente o ônibus inclina, puhhh (cai da cadeira onde está sentado). Você vê só a cabeça do gordo entrando, parece Jurassic Park, entrou o dinossauro, fica quieto. O ônibus vem balançando, puf, puf. Aí ele para na 16, você fala: ufa! Aí ele continua, tava só respirando, porque gordo faz isso, ele respira e fala mais dez passos, mais dez passos (imita alguém andando). Chega, faz aquele eclipse, eu fico puto cara, porque ele não pagou os 40% da minha poltrona que ele vai usar Todo mundo fala os problemas que o gordo sofre, ninguém fala os problemas que o gordo causa’ (37m35s a 41m30s).
‘Se você for no zoológico, os animais vão tirar foto!”. (…) “Olha essa outra! 11 anos e 95 kg! A dessa menina é demais! (…) “Fui dançar o Rei Leão na escola e me botaram pra ser o elefante.”. Olha, minha filha, tinha duas opções: ou você era o elefante, ou todos os outros animais, mas aí não ia sobrar papel pra mais ninguém! Porra, 11 anos e 95 kg e tu queria ser o Simba? Coitado do garoto que ia fazer o macaco! Imagina aquela cena do batizado? (…) Nessa hora o negro da turma ia falar: ‘Ainda bem que eu não podia ser o macaco. Ia dar processo!’
‘Sou gordo, adoro comer e não gosto de fazer exercício. Como vou emagrecer? Pegando AIDS! Cê não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha, uma hora dá certo! Essa piada pode parecer um pouco preconceituosa. Porque é’ (37m35s a 46m42s).
‘O rico tenta ter filho e não consegue. Vai pro médico, faz inseminação artificial, vai pra África buscar um. Lá tem plantação. Lá você escolhe no pé! (…) Esse tá bem escurinho, vai dar like no insta!’ (…)
‘Se o negro brigar com um membro da Ku klux klan ele vai preso por agredir o Zé gotinha!’.
‘Tem gente que fala: ‘O negro não consegue arrumar emprego!’. Mas na época da escravidão já nascia empregado e também achava ruim! Aí difícil ajudar!’. ‘Aliás, se o Dia da Consciência Negra é feriado pelos negros, Quarta-Feira de Cinzas devia ser judeu!’ (1h05m07s a 1h09m10s).”
3.
“Importante mencionar que a Lei n. 7.716/89 foi recentemente alterada pela Lei nº 14.532/2023, tendo recebido relevantíssimo instrumento de interpretação antirracista, o qual apresenta chave hermenêutica para a interpretação da legislação criminal antidiscriminatória ao estabelecendo o seguinte:
‘Art. 20-C. Na interpretação desta Lei, o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou procedência.’
É inegável que o discurso abaixo proferido pelo réu em seu show causa constrangimento e humilha pessoas gordas:
‘Ai, eu nem posso fazer exercício. As pessoas me olham na academia.” Porra, claro! Ninguém tá acostumado a ver um aparelho de leg press andando. Porra, um transformer veio malhar? Puf! Puf!’ (37m35s a 40m10s).”
4.
“No trecho, o réu passa a ofender evangélicos, dizendo: ‘Uma vez eu me inscrevi para fazer o Enem e o tema da redação era intolerância religiosa. Como eu sei que religião é um tema delicado, faço questão de deixar claro que eu respeito todas as religiões, menos Testemunhas de Jeová: não merece. Chato pra caralho. Jeová tem dois mil anos, você tem 30. Que testemunha é essa? No máximo tu ouviu falar, é o fofoqueiro de Jeová. Fica querendo converter os outros, parece a Hinodê: chato, chato’.”
5.
“De sua parte, o crime previsto no art. 88 da Lei n. 13.146/2015 que diz respeito a praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência restou consumado. Inicialmente, LEONARDO se referiu a pessoas com deficiências auditivas, inclusive com gestos e imitações:
‘Eu acho, de verdade, que o tipo de humor que eu faço é o mais inclusivo de todos. Eu faço piada de tudo e de todos. Quer show mais inclusivo do que esse? Eu já cheguei a contratar intérprete de libras, só pra ofender surdo-mudo. Não adianta fingir que não tá ouvindo não…’. Em seguida, emite sons ‘imitando’ pessoas mudas: ‘Ahn, ahn, ahn’ e diz: ‘Sinal você entende. Entende esse aqui?’ (e faz um gesto obsceno, levantando o dedo médio).’
‘Eu ia trazer um intérprete hoje, só não trouxe porque eu pensei: ‘ah foda-se os surdos né?’ (…) ‘Eu até aprendi algumas. Vou ensinar pra vocês. Sabe como o surdo e mudo fala bom dia? – Ahnnn! Boa noite? – Nhanhanhan’ (5m49s e 6m10s).”
6.
“Após, no trecho entre 16m58s e 17m30s o réu insulta pessoas com deficiência física:
‘Acho que eu sou o único stand up no Brasil que no dia do show, por conta das ameaças, na porta do teatro, colocaram um detector de metal. (…) E graças ao detector a gente impediu a entrada de 1 canivete e 2 cadeirantes. Os cadeirantes eram muito meus fãs, vieram se arrastando me ver. Parecia um soldado na trincheira eles vindo assim (fazendo movimentos corporais)’.”
7.
“Além das pessoas com deficiência física e auditiva, o réu expõe e humilha pessoas nanismo e também com deficiência intelectual, conforme os trechos seguintes:
‘Agora na Síria tem um anão (finge estar segurando o riso) combatendo o Estado islâmico. (…) Um anão, cara? Isso não é um ataque físico, é um ataque moral. Eu acho que esse anão ficou puto porque expulsaram ele do Estado Islâmico. Não dá nem pra ele ser um homem bomba! Vai ser o quê? Um homem estalinho? Pá. Eles usam anão em festa junina.’
Em seguida, simula atirar anões no chão, emitindo os sons “Pá! Pá! Pá!’ e prossegue:
‘Se tiver algum anão aqui, no final do show a gente estoura: pá! Mais um processo! Pelo menos vai ser pequenas causas’ (27m56s a 28m55s).
‘Eu mando mensagem, ele não responde. Eu converso e ele não olha pra mim. É um padre artista ou um padre autista? (…) Apareceu a associação dos autistas do Brasil. Uma mãe mandou mensagem pra mim. (…) Eu falei: Vou fazer igual seu filho e te ignorar. Já tá acostumada mesmo” (59m a 59m36s).”
8.
“Finalmente, no discurso: ‘Pra encerrar, quero deixar bem claro que eu sou completamente contra o preconceito. Preconceito, pra mim, é uma coisa primitiva que não devia mais existir. Que nem o índio! Chega, não precisa mais!’ constante do trecho de 1h09m25s a 1h9m38s do vídeo, é certo que o réu inferioriza e desqualifica os indígenas.
Presente, portanto, a materialidade delitiva.”
O que alegou Léo Lins?
A decisão relata as alegações do humorista:
“Em interrogatório, LEONARDO respondeu ser falsa a acusação, a qual reputa bem absurda. Disse estar claro que o ambiente é fictício, que se trata de um personagem no palco. Costuma dizer que ali está no ambiente adequado. As pessoas entram por livre e espontânea vontade. É um espetáculo teatral com texto, figurino, onde deixa claro o conteúdo. Tanto que é um dos únicos comediantes que adota uma única roupa para todo espetáculo. Ao final dá uma desmontada e tem uma conversa com a plateia deixando claro a distinção do ambiente teatral.
Acha que o humor alivia a dor seja ela qual for, uma piada pode aliviar a dor opcional de uma pessoa, que não pode ser justificativa para impedir o sorriso de outra. Seu intuito é fazer o público rir. Se não rirem, ou edita a piada ou tira do show. O que lhe mantém seguindo em frente é o público. É muito gratificante receber relatos de que suas piadas salvaram a vida de alguém, por exemplo.
Racismo, gordofobia, gênero, sotaque são temas que fazem parte do show. Há um simbolismo no cartaz, porque são conteúdos que podem ser debatidos e podem ser feito piadas, desde que bem construídas a tinjam seu objeto de fazerem dar risada. São temas contemporâneos e o humor lida com isso, pegar tópicos relevantes na sociedade e tratar isso sob a ótica do humor.
Indagado sobre considerar a internet um lugar restrito, respondeu que publicou o vídeo em um canal que é de humor, sua página é de humor e quem entra ali quer, quem não quiser, pode bloquear, não assiste. Nem que queira conseguirá fazer seu conteúdo chegar a alguém que não quer.
Não chegou a ver viu o vídeo que está no processo. Não sabe dizer exatamente quanto tempo de duração tinha seu vídeo original. Não considera que suas declarações são depreciativas. Nunca teve notícias de que alguém tenha sido incentivado a cometer ato preconceituoso após ver o seu show. Pelo contrário, muitos PCDs, autistas, cadeirantes, pessoas que sofreram AVC frequentam o seu show. Inclusive nesse show em Curitiba, logo após a repercussão do processo, as primeiras pessoas que levantaram e o aplaudiram de pé eram negras.
Entende que não praticou nenhum crime. Acha que o crime do artigo 20 é praticado, por exemplo, quando pessoas dão declarações abertas de que são contra grupos minoritários.
Nunca foi processado criminalmente. Já teve que pagar em ação civil por uso indevido de imagem, em caso que também entende errado, pois a pessoa era pública. Ficou dez meses suspenso em razão das cautelares do processo e isso lhe prejudicou bastante. Suas redes sociais pararam de crescer, seus vídeos não entregam mais. Algumas testemunhas que vieram hoje são seus fãs e acompanham seu trabalho. O contato com eles foi basicamente virtual. Não tem ideia de quanto o show ‘Perturbador’ lhe gerou em rendimentos. Não sabe quanto lhe gerou à época, até porque é um vídeo de 2022. Não sabe dizer quanto o Youtube lhe rendia à época. Também não sabe se alguém viu e achou alguma diferença entre o vídeo original e aquele baixado pelos Ministérios Públicos nos autos.
Acha que as piadas foram editadas de forma tendenciosa na denúncia. A piada que fala de racismo, por exemplo. A piada tem uma estrutura. O setup é o preparo, baseado na realidade e o punchline é uma distorção, um abursdo onde usam figuras de linguagem para falar absurdos e criar contextos que geram risada no público.
Na piada em que fala dessa questão do racismo tem uma parte em que fala ‘mas graças a Deus acabou, a escravidão, esse tipo de coisa’ e essa parte foi especificamente removida da denúncia.
Essa parte mais séria ao final de show, onde fala sobre preconceitos, consta do Youtube no vídeo original, mas não foi transcrita na denúncia, o que para ele parece que a acusação ‘pinçou algumas coisas’.
Acredita que não fala para uma ‘minoria dentro da minoria’, tal como indagado pelo Ministério Público Federal. Caso sejam uma minoria, essa minoria não merece respeito? Se apresenta pelo Brasil inteiro e não tem a percepção de que fala para um público que não representa as minorias. Sua intenção nunca foi incentivar que as pessoas fossem preconceituosas.
Não quer que alguém se machuque por sua causa. Mas se a pessoa assiste ‘Tropa de Elite’ e sai com vontade de dar um tapa na cara de alguém, quem tem que ser punida é essa pessoa e não o ator Wagner Moura.
Quem é mais sensível ou tiver gatilhos com alguns temas, espera que entenda que esse show não é para ela. Ficou entre os três melhores shows de standup esse ano.
Sobre a foto de fl. 13 do ID 357473624, diz que uma moça com nanismo subiu no palco espontaneamente para que ele fizesse piadas. Depois do show ela inclusive ficou para lhe agradecer.
Nas pp. 14/19, também são pessoas que subiram no palco para que ele fizesse piadas de forma espontânea em shows, são todas pessoas com alguma deficiência. Já levou intérprete de libras a seu show, não sabe se outro comediante já fez isso.
Não reproduz piadas e conteúdos de seu show em sua vida cotidiana. Acha que piada é no palco. Se está andando na rua e vê uma anã, não vai fazer piada, ou no mercado e vê uma pessoa com sobrepeso, não está no ambiente para isso e ela não está ali para isso.”
O que disse a juíza sobre as alegações de Léo Lins?
A juíza Barbara de Lima Iseppi não acatou as alegações do humorista.
“Com o devido respeito à profissão de comediante do réu e às pessoas que o admiram e acompanham como as testemunhas, a tese defensiva sobre o conteúdo das falar consistir em ‘humor’ não pode ser acolhida.
Isso porque o ‘animus jocandi’, expressão latina que se refere à intenção de causar humor ou diversão (excludente de tipicidade do crime de injúria), é de uma época em que piadas ‘politicamente incorretas’, com referências a uma lista sem fim de vítimas (negros, membros da comunidade LGBTQIA+, judeus, muçulmanos, católicos, ateus, loiras, deficientes, gordos) eram admitidas/toleradas sob o fundamento da liberdade ilimitada do humor.
Ocorre que nesta era consagrada aos Direitos Humanos como uma conquista inegociável da civilização, o ‘animus jocandi’ é recurso argumentativo dissonante da dignidade da pessoa humana (CF, art.1º, III), não podendo ser tratado como ‘um habeas corpus perpétuo para a prática de ofensas inconsequentes contra a honra alheia (…)’, conforme consagrou o Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Agravo em Recurso Especial n. 2326818- DF (2023/0087658-9), de 25/08/2023.
No mesmo julgado, a Ministra Nancy Andrighi elucida que a expressão ‘animus jocandi’ é contemporânea da escravidão, que também já foi normalizada, tolerada e institucionalizada. Também é dessa época e desse mesmo contexto social a ‘horrenda, nefasta e anacrônica’ tese da ‘legítima defesa da honra’ invocada por homens que (ainda) matam mulheres e que resultou na normalização e na tolerância institucionalizada da pena de morte hoje tipificada como feminicídio, refutada em 2021 pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF 779.
A sociedade chegou em um ponto de evolução de direitos em que não se pode admitir retrocessos como a prática de crimes sob pretexto de humor. As falas do réu em seu show, transcritas no tópico anterior, manifestam ideias preconceituosas e discriminatórias que não podem ser toleradas ou normalizadas sob o escudo de ‘humor’.”
O que disse a juíza sobre a questão do dolo de Léo Lins?
Para a juíza Barbara de Lima Iseppi, “o dolo está devidamente demonstrado na espécie, através do próprio conteúdo das falas do réu, o qual – a propósito – afirma saber ser preconceituoso e ainda fazer piada de tal fato, a exemplo da fala retirada do trecho de 37m35s a 46m42s do vídeo:
‘Sou gordo, adoro comer e não gosto de fazer exercício. Como vou emagrecer? Pegando AIDS! Cê não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha, uma hora dá certo! Essa piada pode parecer um pouco preconceituosa. Porque é’. Grifo nosso.
No trecho abaixo, percebe-se que o réu, ao criar as falas de seu show, reflete sobre a real possibilidade de ofender pessoas e, mesmo assim, além de decidir prosseguir com a ‘piada’, demonstrando inclusive descaso com possível reação das vítimas:
‘Eu juro pra vocês. Eu juro que quando pensei nessas piadas, pensei: e se algum dia um gordo ficar puto comigo? Bom, aí eu corro (dá risada) e se ele tiver me alcançando eu jogo uma cozinha no chão: coxinha, coxinha!’ (37m35s a 41m30s).
Outros excertos mostram a consciência do réu sobre praticar preconceito ao afirmar que ‘receberá mais um processo’, ao afirmar que ‘tudo hoje pode dar problema’, assim como de que a ‘associações’ reclamariam sobre as ‘piadas’, como a associação dos autistas e a das pessoas com lábio leporino:
‘Se tiver algum anão aqui, no final do show a gente estoura. Mais um processo! Pelo menos vai ser pequenas causas’ (27m56s a 28m55s).
‘Tudo hoje pode dar problema. Uma vez eu fiz uma piada sobre lábio leporino. Porra. Apareceu a associação dos lábios leporinos. Todos me xingando. Eu fechei os comentários, eles acharam uma fenda. Essa é de letra, piscou, perdeu’ (49m07s a 49m27s).
‘Eu mando mensagem, ele não responde. Eu converso e ele não olha pra mim. É um padre artista ou um padre autista? (…) Apareceu a associação dos autistas do Brasil. Uma mãe mandou mensagem pra mim. (…) Eu falei: Vou fazer igual seu filho e te ignorar. Já tá acostumada mesmo’ (59m a 59m36s).
Ora, não tivesse plena consciência de que está promovendo discursos discriminatórios, o réu nada diria a respeito de ser preso, processado, ‘cancelado’, sendo nítida sua ação livre e voluntária, com dolo direto:
‘Eu já fui cancelado, sei lá acho que umas cinco vezes aí por gordofobia, eu devo estar com uns três processos de gorda no momento, todas da Bahia, não sei porquê. Meu advogado me ligou semana passada falou: como tem gorda na Bahia. Aleatório, né? Por conta desses cancelamentos eu fui parar num site de denúncia de gordofobia. E foi muito bom, porque eu acabei conhecendo esse site. Aí toda vez que eu meio desanimado, meio pra baixo. Eu entro lá e renovo o espírito. É muito bom. É um espaço online onde os gordos se reúnem. Se fosse físico só cabia três. Eu não sei como o site ainda não caiu’ (37m35s a 41m30s).”
Para a juíza, “resta provado o dolo do réu na ação, sendo a condenação de rigor”.
Este é um texto exclusivamente noticioso. Análises sobre esta decisão poderão ser feitas em outras publicações de O Antagonista e nos programas audiovisuais, no canal do portal no YouTube.
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Comentários (8)
Marcia Elizabeth Brunetti
04.06.2025 10:15Neste país um cantor que faz apologia ao crime é liberto em um dia. A multidão de idiotas vão recepcioná-lo, e tinha mais gente que comício do Lula. Agora, um humorista pegando 8 anos de prisão por fazer uma piada de uma figura pública (que sabe que são verdades, por isso ficou brabo) é absolutamente inaceitável. Como podemos agir????
Marian
03.06.2025 18:54Quase 9 anos...aquele traficante, é aquele que saiu pela porta da frente, numa decisão do stf, ficou apenas 3 meses no xilindró... dá para entender?
Fabio B
03.06.2025 15:46Mas a impunidade do Brasil e leniência da justiça às vezes funciona até para o bem. O Léo Lins tem grana para pagar a advogado, é bem provável que não seja preso nunca. E é bem provável também que seja inocentado na segunda instância.
Ana Maria
03.06.2025 15:21Nosso pais, alem desgovernado, tsmbem fica mais triste.
Joaquim Arino Durán
03.06.2025 15:10Um país onde o presidente é o maior ladrão da história.
Carlos Augusto Lins Brito Da Silva
03.06.2025 14:32Com certeza o humorista Costinha já estaria preso em prisão perpétua. Onde chegamos. Deixamos de espontâneos pra falarmos pisando em ovos.
Fabio B
03.06.2025 13:48País de desgraçados. Soltaram agora um traficante e apologista de facção criminosa, mas quem essa turma acha que deve ser preso é um comediante por ter contado uma piada num espetáculo de humor. Este é mesmo o país onde é o poste quem mija no cachorro.
JEAN PAULO NIERO MAZON
03.06.2025 13:14Juiz mimizenti