Josias Teófilo na Crusoé: O tempo inverso no cinema
Enquanto o escultor trabalha com o mármore, o cineasta trabalha com o tempo registrado pela câmera
No livro A Iconóstase, Pavel Florenski parte de uma das ideias fundamentais do cristianismo: a existência simultânea de uma realidade visível e de uma realidade invisível.
Ao citar o Gênesis — “No princípio Deus criou os céus e a terra” — e o Credo, que define Deus como criador do universo visível e invisível, ele afirma que esses dois mundos não estão isolados. Existe entre eles uma fronteira que separa, mas também une.
Essa concepção é central para a tradição cristã oriental. O ícone não é apenas uma representação religiosa, mas um ponto de contato entre as duas dimensões da realidade. Sua função não é reproduzir o mundo material, mas revelar uma presença que o transcende.
Para compreender como ocorre essa comunicação entre os mundos, Florenski recorre ao sonho. Segundo ele, o sonho é a forma mais simples e acessível de contato com o invisível.
Zona de passagem
Trata-se de uma realidade intermediária, uma zona de passagem entre diferentes estados do ser. Não por acaso, os sonhos desempenham papel importante na tradição bíblica.
José interpreta os sonhos do faraó; Daniel decifra as visões de Nabucodonosor; São José recebe em sonho a ordem de fugir para o Egito com a Sagrada Família.
Em todos esses casos, o sonho aparece como um meio de comunicação entre o humano e o divino.
A arte possui uma afinidade profunda com essa estrutura simbólica. Assim como os sonhos, ela opera por imagens, condensações e arquétipos. Florenski chega a definir a arte como “um sonho que encarnou”. A frase parece descrever perfeitamente a obra de Andrei Tarkóvski.
Tarkóvski
Poucos cineastas atribuíram tanta importância aos sonhos quanto Tarkóvski.
Em seus diários, ele registra sonhos, pesadelos e pressentimentos, procurando compreender seu significado. Em determinado momento, define o sonho como um “realismo espiritual”.
A expressão revela uma concepção semelhante à de Florenski: o sonho não seria uma fuga da realidade, mas outra forma de acessá-la.
Essa visão ajuda a compreender a atmosfera de filmes como O Espelho (foto), Stalker e Nostalgia.
Neles, memória…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)