Josias Teófilo na Crusoé: O fracasso da produção audiovisual da Netflix no Brasil
Como a empresa perdeu o rumo e deixou as melhores produções nas mãos da concorrência
Estive notando que as melhores séries documentário e de ficção feitas pelo streaming no Brasil têm algo em comum: não foram realizadas pela Netflix.
A série O que vale é o escrito, sobre a cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, foi feita pela GloboPlay.
Essa na minha opinião é a mais importante série documentário já feita pelo streaming no Brasil — não é à toa que foi o documentário mais visto nos dez anos da Globoplay — pela abordagem inédita do tema, e os relatos em primeira pessoa dos integrantes da cúpula do jogo do bicho.
A série O Pacto Brutal, sobre o assassinato de Daniella Perez, foi feita pela HBO Max e distribuída internacionalmente, com grande sucesso de público, estando entre as mais vistas da plataforma globalmente.
As séries de ficção Dom, Cangaço Novo e Tremembé, esta última com enorme repercussão, foram produzidas pela Prime Video.
A Prime Video tem 200 milhões de assinantes no mundo, 100 milhões a menos que a Netflix, mas no nosso país a Prime superou o número de assinantes da Netflix.
Isso reflete os erros da plataforma no Brasil, alguns deles estrondosos como a série Senna, a mais cara já feita no país, massacrada pela crítica, e com público pouco relevante.
Um dos críticos escreveu: “Senna, a série, é infame e parece um jogo de videogame inexpressivo”.
Não preciso nem dizer o potencial que a história de Ayrton Senna tem no país, e a plataforma conseguiu arruiná-la, mesmo gastando 250 milhões.
Até agora, o melhor filme sobre Senna, o documentário de Asif Kapadia, foi feito por um inglês de origem indiana.
O mesmo aconteceu com outro importante personagem brasileiro: Pelé. O documentário da Netflix foi lançado em 2021, com depoimentos do próprio.
O produto, de qualidade sofrível, gasta boa parte do tempo questionando o maior jogador da história porque ele não se opôs aos governos militares brasileiros.
Mais uma grande oportunidade perdida.
A Netflix fez também uma série de ficção sobre a Lava Jato em 2018, quando a operação ainda não havia sido desmontada.
Concebida por José Padilha, e tendo um belo de um elenco (Selton Mello, Carol Abras, Enrique Diaz), a série O Mecanismo contrastou com a anterior do diretor, Narcos, pelo fracasso de público.
Não teve segunda temporada.
Outra série de ficção ambiciosa da Netflix teve destino semelhante: Coisa mais linda, que se passa nos anos 1960 no Rio de Janeiro, uma abordagem feminista da Bossa Nova.
O pressuposto, aliás, é uma contradição em termos: não existe nada menos feminista que a Bossa Nova.
É singular que a principal referência da série, autodeclarada, é a série Mad Men, também uma abordagem nem um pouco feminista.
O fracasso mais recente foi a série Os Donos do Jogo, dirigida por Heitor Dhalia, que retrata a mesma história da série O que vale é o escrito da Globoplay, só que ficcionalizada.
O grande problema da série…
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