Josias Teófilo na Crusoé: Igreja de parede preta
A sociedade humana vem se dessacralizando e talvez o ponto mais baixo disso seja o fenômeno das igrejas que emulam a atmosfera de shows
Uma catedral gótica é ritualmente orientada no sentido oeste-leste, sendo a cabeça (o ábside) voltada para o leste.
A nave é um retângulo: a porta situa-se no oeste, onde o sol se põe, e o altar no leste, onde o Sol nasce.
O caminho feito pelo fiel vem da escuridão para a luz, é uma via de salvação.
A catedral em si tem a forma de cruz, entra-se nela pela porta, um lugar muito significativo, decorada por vezes com estátuas de archeiros, dragões, leões ou esfinges, um lugar que representa um limiar entre o céu e a terra – e nisso ela resume toda a igreja, que é também um liminar entre o céu e a terra.
De fato, ela tem uma base retangular e é encimada por um arco, a mesma forma da catedral – a parte arredondada apresenta o céu e a parte retangular a terra.
Na entrada tem uma pia batismal – o objetivo deste lugar, representando a nascente sagrada, é o fiel purificar-se antes de entrar no templo.
A catedral inteira tem esculturas que formam uma enciclopédia visual – uma Bíblia de pedra, como diz John Ruskin.
No altar, existem doze colunas que representam os doze apóstolos, colunas espirituais da Igreja.
Tem um labirinto que serve para fins de exorcismo, tem vitrais que deixam entrar a luz de modo controlado, e colorido, com referências cosmológicas e astrológicas.
Para completar, as sete catedrais dedicadas à Virgem (Notre Dame, que significa Nossa Senhora) onde nasceu o estilo gótico, formam o desenho da Constelação de Virgem no mapa da França. Ou seja, além da orientação ritual, tem também a orientação geográfica integrada.
E isso não chega a ser nenhum grande mistério (não precisa recorrer ao livro Seriam os deuses astronautas? de Erich von Däniken) apenas foi programado pelos antigos, que pensavam antes de construir, e estavam sempre olhando para o céu.
O local em que as igrejas eram construídas são muito importantes: Chartres foi construída no local de um dos templos mais antigos do mundo, a Catedral de Colônia foi construída sob um templo romano, e no seu subsolo ainda há mosaicos desse tempo.
O cenário que descrevi mostra o grau de complexidade e refinamento da mente do homem religioso – aquele a quem o homem moderno considera como simplório e ignorante.
A sociedade humana vem se dessacralizando e talvez o ponto mais baixo disso seja o recente fenômeno das igrejas de parede preta.
Tais igrejas emulam a atmosfera de shows: são ambientes com amplificação de som, luzes e decoração estimulantes, inscrições em led, e tem o hábito de misturar português e inglês, como na inscrição “we are reino”, muitas denominam-se “churches”.
São igrejas pentecostais ou neopentecostais que têm por objetivo declarado atrair jovens.
Existem também objetivos não declarados, o lucro, como se vê nos escândalos descritos no documentário da Netflix sobre a igreja Hillsone.
Da catedral gótica até a igreja de parede preta existe um caminho de dessacralização do espaço religioso – um fenômeno que remonta ao Renascimento, à Reforma Protestante, ao Iluminismo, cada um dando sua contribuição decisiva.
É claro que você pode ligar a antiga catedral dedicada à virgem a um Mosteiro de São Bento, em plena atividade, onde a música é tocada em órgãos de tubo e a missa tem canto gregoriano.
Mas o mosteiro é uma exceção no mundo atual, a igreja de parede preta é muito mais sintonizada com a nossa época.
É que antes as igrejas pautavam a sociedade, até mesmo esteticamente.
Hoje, as igrejas (inclusive católica, se bem que menos que as evangélicas) são pautadas pela sociedade leiga.
Os estilos musicais cantados na igreja emulam estilos que fazem sucesso fora da igreja – isso acontece até mesmo na Igreja Católica, que desde Concílio Vaticano II passou a usar estilos musicais locais e contemporâneos na missa, apesar de recomendar o canto gregoriano.
O estilo arquitetônico das igrejas igualmente passou a emular os estilos da sociedade em geral – o gótico, inversamente, nasceu igreja e se difundiu na sociedade.
A estrutura de uma igreja de parede preta pode muito bem ser usada para uma casa de shows, um armazém da construção ou um supermercado. E não vai precisar de grandes alterações.
Além dos problemas estéticos, a igreja de parede preta tem problemas de outra ordem: o estrelismo, com pastores que são ao mesmo tempo cantores e pop stars, o que leva a ter áreas vips para um grupo de eleitos (geralmente os que doam mais ou são famosos).
Outro problema é o exagero emocional, com músicas em altíssimo volume (constantemente os vizinhos reclamam), que levam sempre a um ápice de agitação onde todos louvam junto alguma música pop com letra religiosa levando as mãos ao céu e fazendo cara de emocionado.
Há quem diga que os jovens são atraídos por esse tipo de atividade, e é melhor que eles estejam ali, num ambiente relativamente controlando, que se embriagando numa festa.
Ora, essa oposição entre religiosidade e consumo de álcool só existe na cabeça de protestante – desde sempre os mosteiros produziram cerveja e vinho, e os monges e padres a consomem sem grandes restrições, assim como os fiés.
O pecado para o católico está no exagero, embriagar-se até perder o controle ou a consciência.
De qualquer forma, segundo eles, os jovens estão louvando a Deus, e num ambiente que é moralmente rígido.
Se você assistir à série documentário chamada Os Segredos da Igreja Hillsong verá que a rigidez moral não tem sido bem posta em prática – ao menos não na super igreja de parede preta que difundiu o culto-show pelo mundo.
A minha principal crítica é…
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