Josias Teófilo na Crusoé: Film noir brasileiro
O brilho da Vera Cruz e o peso clássico que o cinema brasileiro deixou para trás
O cinema brasileiro jamais teve o mesmo padrão de qualidade dos filmes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.
Foram cerca de vinte longas-metragens entre 1949 e 1954. Nessa época, o film noir estava, por assim dizer, em voga.
O período da guerra e do pós-guerra foi um momento sombrio da humanidade, em que muitas vezes faltou esperança ao homem. Essa falta de esperança ficou impressa nos filmes.
O film noir é um gênero sombrio, profundamente dramático, repleto de paixões trágicas e personagens sinistros.
O cinema brasileiro deu sua contribuição ao gênero, apesar de não tê-lo desenvolvido extensivamente. Vários filmes da Vera Cruz têm elementos do noir.
A equivalente carioca da Vera Cruz, a Atlântida, apesar de ser oposta em vários sentidos, no sentido de fazer filmes baratos e populares, tem filmes com traços marcantes do noir: filmes como Também somos Irmãos, com Grande Otelo, de José Carlos Burle e Amei um bicheiro, de Jorge Ileli e Paulo Wanderley — este último tem uma bela cena final no Aeroporto Santos Dumont que lembra o filme Casablanca.
O segredo da qualidade dos filmes da Vera Cruz está em Alberto Cavalcanti, convidado para ser diretor artístico da empresa.
Cavalcanti tinha larga experiência no cinema desde os anos 1920 na França, quando começou como diretor de arte, e lá realizou filmes de vanguarda.
Seu filme Rien que les heures, de 1926, é um marco do cinema experimental francês.
Em seguida, produziu documentários inovadores na Inglaterra no chamado documentary movement liderado por John Grierson.
Por isso tudo, é considerado um mestre de três cinematografias: francesa, inglesa e brasileira. No célebre livro/entrevista Hitchcock/Truffaut, o mestre Alfred Hichcock o cita como uma influência.
Cavalcanti trouxe um novo padrão de excelência para a Vera Cruz e consequentemente para o cinema brasileiro.
Os filmes da Companhia não deviam nada em qualidade a outras cinematografias do mundo, e Cavalcanti foi um dos maiores diretores da sua geração, reconhecido como tal no exterior.
O pós-guerra foi um momento glorioso da arte brasileira, e o cinema tem papel especial nisso com a Vera Cruz.
Infelizmente, não podemos dizer algo semelhante do cinema brasileiro feito nas décadas seguintes.
A Vera Cruz tinha uma série de características que não vão repetir-se depois: símbolos do cristianismo, elementos do film noir, uso de música clássica como trilha e como tema, representar a elite, e, principalmente, a gravidade da linguagem cinematográfica.
O Cinema Novo nos…
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