Josias Teófilo na Crusoé: Espontaneidades criativas
Heitor Villa-Lobos, Gilberto Freyre, Bruno Tolentino e outros artistas criaram em meio ao caos
Certa ocasião, em um trem em São Paulo, o pianista Souza Lima pediu que Heitor Villa-Lobos escrevesse uma composição para ele algum dia.
O compositor imediatamente pegou uma folha e, entre duas estações, escreveu uma peça para piano chamada Caixinha de música quebrada, dedicada ao pianista.
Essa história é contada por Eero Tarasti no livro Heitor Villa-Lobos, Vida e obra (1887 — 1959).
Neste mesmo livro está registrada a fala de Herbert Weinstock, que supõe que a única pessoa capaz de ter ouvido toda a obra villa-lobiana tenha sido o próprio Villa-Lobos, tal foi a sua vasta produção.
Andrade Muricy acrescenta que o compositor escreveu tudo que lhe ocorreu, desprevenidamente.
O próprio autor, o finlandês Eero Tarasti, escreveu que poucos compositores da história da música estão envoltos em uma nuvem de mitos e histórias fantásticas da mesma forma que Villa-Lobos.
Luiz Guimarães escreveu que o compositor carioca chegava a anunciar e mandar imprimir programas de concertos com obras das quais existia apenas um tema, um esboço ou um pedacinho de papel da música. Pouco antes do concerto, ele chegava com as partes copiadas por ele mesmo.
Um observador viu Villa-Lobos, já na época de apadrinhado de Getúlio Vargas, numa repartição pública compondo, com o rádio ligado, e ao mesmo tempo dando esporro e ordens para várias pessoas, tudo ao mesmo tempo.
Assim, no meio do caos, ele criou tantas obras importantes. Talvez por isso tenha sido muitas vezes descrito como um animal selvagem.
Essas espontaneidades criativas não são exclusividade de Villa-Lobos.
Em 2019, fui recebido pelo compositor Marlos Novre, em muitos aspectos oposto ao compositor carioca, e ele me mostrou a agenda telefônica em que ele anotou as primeiras ideias musicais do Concerto para Violoncelo, que estreou com a Osesp naquele ano.
Wagner Carelli contou-me no depoimento ao filme O Brasil como Ideia, que vou lançar este ano, como viu a impressora da redação da revista Bravo! cuspir um poema de cordel erótico (de caráter homossexual) escrito por Bruno Tolentino.
Ele tinha tentado imprimir aquilo, mas não conseguiu. A impressão só chegou a acontecer depois, para o deleite de Wagner, que disse ter lido uma obra e tanto (nunca foi publicada).
Tolentino, que costumava mudar de personalidade de acordo com o ambiente social, por vezes se apresentava como…
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