Josias Teófilo na Crusoé: Distorções cinematográficas
Como o cinema americano distorce a história ao projetar sua própria cultura em narrativas do passado
O cinema, por sua própria história e natureza, vê os diferentes momentos da humanidade de forma bem específica.
O Império Romano, por exemplo, é representado como um ambiente anglo-saxão, com a formalidade dos americanos, e os trejeitos deles. Os filmes sobre o Império Romano feitos pelos americanos falam mais sobre eles do que sobre o antigo império.
Na realidade, os anglo-saxões — conjunto de povos germânicos que migraram para a grã-bretanha e trouxeram o que viria a ser a língua inglesa — são o exato oposto dos romanos, são o que eles consideravam como bárbaros, selvagens, indisciplinados. Até o aspecto que eles tinham era bem diferente dos romanos, eram excessivamente brancos e loiros — os romanos eram miscigenados.
Acontece que esses povos anglo-saxões adquiriram posteriormente características ainda mais diferentes dos romanos, resultado de fatores políticos e religiosos. E essas características ressaltaram nas diferenças com os povos latinos, descendentes diretos dos romanos.
Fellini
Como seria um filme sobre o Império Romano feito por um cidadão da Roma antiga? Não precisa nem imaginar, porque ele existe, e pode ser visto. Trata-se de Satyricon (foto) de Federico Fellini. O diretor italiano nasceu em Rimini e viveu na Roma moderna, porém adaptou um livro escrito na antiguidade, e com bastante acuidade histórica e cultural.
Outros filmes de Fellini, como Roma, Noitres de Cabíria, La Dolce Vita, 8 e meio, trazem igualmente a atmosfera da Roma antiga: as procissões (existentes tanto na fase cristã, quanto na fase pagã anterior), o caos e a bagunça da cidade, a atmosfera erótica (a prostituição de rua incluída), e o próprio cenário — a cidade antiga aparece muito nos filmes de Fellini. Até o latim era ainda falado na cidade, especificamente no Vaticano, assim como nas missas e procissões.
O Gladiador, de Ridley Scott, é um grande filme, mas bastante anglo-saxão em sua formalidade. É, mais uma vez, os americanos falando…
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