Josias Teófilo na Crusoé: Como o cinema brasileiro conformou-se ao subdesenvolvimento
Paulo Emilio, fundador da Cinemateca Brasileira, chega a conceber um cinema “feio, triste e comovente como o país”
Donny Correia no livro O Cinema de Walter Hugo Khouri descreve como o filme O Corpo Ardente, do diretor paulista, foi mal-recebido no Festival de Cannes de 1966 por não representar os clichês brasileiros, como miséria e pobreza.
Toda uma teoria do cinema brasileiro foi feita tendo como eixo o subdesenvolvimento.
Paulo Emílio Salles Gomes, fundador da Cinemateca Brasileira, escreveu o livro Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, em que diz que os diretores nacionais não deveriam buscar a pureza estética do cinema europeu ou do modelo industrial de Hollywood, mas tomar consciência da sua condição periférica e transformá-la em força criativa.
O subdesenvolvimento, segundo ele, era a marca estruturante num país onde a limitações econômicas e técnicas determinava o modo de fazer cinema e produziam uma estética própria. Paulo Emilio chega a conceber um cinema “feio, triste e comovente como o país”.
Para completar, ele defendia que o cinema fosse instrumento de análise e denúncia, revelando as desigualdades e complexidades brasileiras.
No final das contas, propunha um cinema político.
Na verdade, o que se esperava do cinema brasileiro no exterior era exatamente isso: um cinema em outros moldes: periférico, político e subdesenvolvido.
O cinema de Walter Hugo Khouri não tinha absolutamente nada disso. E nem precisava ter. Mas era — e infelizmente ainda é — isso que se espera do cinema brasileiro no exterior (e também dentro do Brasil, com a hegemonia cinemanovista).
É como se o cinema brasileiro não pudesse competir com os temas universais do cinema europeu ou americano.
Ele precisava partir de temas próprios, periféricos, que envolvem o subdesenvolvimento, a pobreza, a miséria — ou temas correlatos, como as ditaduras latino-americanas.
E não bastava os temas, mas também a estética: em 1965, Glauber Rocha escreveu o manifesto Uma estética da fome, em que propõe um cinema como arma política, e usa a fome como linguagem que não deveria ser escondida…
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