Josias Teófilo na Crusoé: A periferia no centro
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A Semana de Arte Moderna de 1922 deu início a uma série de modas intelectuais que repercutem até hoje, cento e quatro anos depois. Uma delas é a moda de valorizar aquilo que é responsável por aquilo que já foi considerado como nossas deficiências, ou seja, a mistura racial, o hibridismo cultural, a informalidade e o jeitinho brasileiro, etc.
É o que diz o escritor Ronald Robson, autor de livro sobre o tema.
“Elementos que eram vistos como responsáveis pela nossa fraqueza deviam ser vistos, resgatados e revalorizados, e tomados como plataforma de afirmação de um modo típico de ser brasileiro”, diz ele.
A partir desse momento, a brasilidade passou a ser compreendida como manifestação de nossa marginalidade, conforme aponta Ronald Robson.
A frase de Helio Oiticica “seja marginal, seja herói” resume bem essa ideia.
Isso foi ainda mais difundido no contexto da ditadura, em que a repressão tornou a marginalidade ainda mais heróica ao olhos da classe artística.
Surge, então, um movimento que retoma esse conjunto de ideias da Semana de 22: a Tropicália.
Sobre o tema, afirma Ronald Robson: “Aquilo que seria considerado poeticamente fraco passa a ser valorizado como poético; ou, do ponto de vista da Tropicália, o que é visto como musicalmente inferior ou simplório pode ser afirmado como um elemento típico de nossa brasilidade, justamente por expressar a nossa marginalidade.”
Em outras palavras, a Tropicália transpõe o ideário da Semana de 22 para o campo musical, ao mesmo tempo em que o atualiza.
Aconteceu rigorosamente a mesma coisa no cinema, com o Cinema Novo e a estética da fome. Não se trata só de registrar a nossa marginalidade e tudo que é periférico, mas também de uma estética marginal.
Surge daí também, nas mais diversas artes, uma espécie de maniqueísmo: o povo é bom, as elites são más. O marginal é bom, o estabelecido é mau.
Uma grande quantidade de artistas teve sua recepção prejudicada por esse tipo de maniqueísmo: o escritor José Geraldo Vieira, os filmes da Vera Cruz, de Alberto Cavalcanti e de Walter Hugo Khouri, o poeta Bruno Tolentino.
Ironicamente, o que era marginal na época dos governos militares tornou-se o oficial na Nova República. Mas a postura dos artistas não mudou, eles continuaram agindo como pobres, periféricos, desprestigiados, oprimidos — mesmo sendo incensados pela crítica, tendo reconhecimento automático e sendo…
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