Jornada menor sem produtividade maior pode encarecer produtos, diz estudo
Pesquisa da CNC estima que adequação ao limite de 40 horas semanais custaria R$ 122,4 bilhões mensais ao comércio, e poderia elevar preços em 13%
A redução da jornada de trabalho no Brasil, sem um avanço equivalente na produtividade da mão de obra, tende a gerar pressão sobre os preços e escassez de trabalhadores qualificados no comércio. A conclusão é de um estudo divulgado nesta segunda-feira, 23, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), durante o debate “Jornada de trabalho e estabilidade do ambiente de negócios”.
O levantamento, elaborado com base em dados do IBGE, foi apresentado pelo economista-chefe da entidade, Fabio Bentes. Ele analisou os possíveis impactos da extinção da escala 6×1 sobre o setor comercial brasileiro, que concentra a maioria dos trabalhadores com jornadas superiores ao novo limite discutido no Congresso.
O peso nos custos e nos preços
Segundo o estudo, aproximadamente 93% dos empregados no comércio cumprem mais de 40 horas semanais, de acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Se o novo teto for implementado sem alteração nos horários de funcionamento dos estabelecimentos, os empregadores precisariam admitir cerca de 986 mil trabalhadores adicionais para cobrir as horas suprimidas.
O custo contábil total dessa adequação chegaria a R$ 122,4 bilhões por mês – valor que, na avaliação de Bentes, dificilmente seria absorvido pelas empresas sem repasse ao consumidor. A estimativa aponta para uma elevação de 13% nos preços ao consumidor final. “Se eu dou um choque no custo do comerciante, ele vai repassar para o preço”, afirmou o economista.
O problema se agrava diante de um mercado com oferta limitada de mão de obra qualificada. Contratar quase um milhão de profissionais num ambiente de escassez significaria, na prática, disputar trabalhadores com salários mais altos, o que ampliaria os custos além do previsto. “Seria uma geração de empregos a um custo maior num ambiente de escassez de mão de obra no comércio”, disse Bentes.
Comparações internacionais
O economista da CNC recorreu a comparações internacionais para contextualizar o debate. Dados do Banco Mundial mostram que trabalhadores de países desenvolvidos cumprem, em média, jornadas menores do que os brasileiros – e ainda assim obtêm melhores condições de vida. A diferença, segundo Bentes, está na produtividade: esses países conseguem produzir mais por hora trabalhada, o que sustenta salários maiores sem elevar os custos de forma proporcional.
No Brasil, sem ganhos de produtividade, a redução das horas trabalhadas tenderia a redistribuir o mesmo volume de produção entre mais trabalhadores, com custo unitário mais alto. A saída, na avaliação do economista, passa pela qualificação da força de trabalho – condição que ele considera indispensável para que a medida gere bem-estar sem efeitos colaterais sobre a inflação e o emprego.
No Congresso, tramitam duas propostas sobre o tema. A PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), prevê a redução da jornada para 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias, sem corte de salário. Já o deputado Luís Gastão (PSD-CE) propõe uma transição gradual para 40 horas semanais, com mecanismos de compensação econômica para atenuar o impacto sobre as empresas.
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