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João Doria e a calça apertada dos 2%

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Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 22.12.2021 11:00 comentários
Brasil

João Doria e a calça apertada dos 2%

Enquanto Jair Bolsonaro incentivava a população a não usar máscaras, a ignorar o distanciamento social e a não se imunizar contra a Covid, o governador de São Paulo fez de tudo para mostrar-se como o gestor que respeitava a ciência e ser o "pai da vacina" no Brasil, na tentativa de se credenciar como o nome da Terceira Via para 2022..

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Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 22.12.2021 11:00 comentários 0
João Doria e a calça apertada dos 2%
Foto: Adriano Machado/Crusoé
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Enquanto Jair Bolsonaro incentivava a população a não usar máscaras, a ignorar o distanciamento social e a não se imunizar contra a Covid, o governador de São Paulo fez de tudo para mostrar-se como o gestor que respeitava a ciência e ser o “pai da vacina” no Brasil, na tentativa de se credenciar como o nome da Terceira Via para 2022.

Na primeira vitória do governador em 2021, o Planalto assinou um contrato de compra de 100 milhões de doses da Coronavac com o Instituto Butantan, no início de janeiro.

Logo após a aprovação do imunizante pela Anvisa, Jair Bolsonaro teve de assistir ao governador aplicando a primeira dose de vacina contra a Covid no Brasil.

Diante da demora do governo federal para comprar imunizantes, a vacinação no país engatinhou nos meses seguintes. Ao mesmo tempo, o número de novos casos e de mortes por Covid aumentava diariamente. O Brasil chegou a ter 4 mil mortes por dia.

Para piorar, Bolsonaro e seus ministros continuavam a atacar a China, enquanto o governo de São Paulo tentava conseguir insumos para que o Instituto Butantan pudesse produzir a Coronavac.

Com o agravamento no quadro da pandemia, Doria, assim como vários outros governadores pelo país, decidiram endurecer as medidas restritivas mais uma vez. A postura irritou Jair Bolsonaro.

No plano eleitoral, o governador de São Paulo manteve as conversas que vinha tendo desde o ano passado com os possíveis candidatos da Terceira Via, mas ninguém acreditou que ele estaria disposto a abrir mão de ser o cabeça de chapa, apesar de sua rejeição nas pesquisas.

Procurando ser mais espontâneo, e adotando a tática do marketing de usar a seu favor o que é contra você, Doria adotou o apelido que lhe foi dado pejorativamente pelos bolsonaristas em seus ataques, o de “calça apertada”. O governador passou usar a alcunha em comentários nas redes sociais.

Segundo Doria, o presidente dormia e sonhava com sua calça apertada. Mais tarde, o apelido seria usado em um vídeo de campaha do governador na disputa das prévias tucanas.

Em abril, uma reportagem exclusiva da Crusoé detalhou as relações heterodoxas do governo de São Paulo com a seção chinesa do Lide, grupo empresarial de João Doria. Documentos obtidos pela revista mostram que as empresas filiadas ao Lide obtiveram contratos com o executivo estadual.

Segundo um ex-funcionário do grupo, chamava a atenção a quantidade de dinheiro em espécie movimentado pelo escritório de Marcelo Braga, diretor da seção chinesa. O governo de São Paulo não deu grandes explicações sobre o caso.

Com a vista voltada para o Palácio do Planalto, Doria tentou garantir que um nome seu disputasse a eleição no governo estadual. Para isso, patrocinou a filiação de seu vice, Rodrigo Garcia, ao PSDB. Integrantes do partido entenderam o episódio como uma traição a Geraldo Alckmin, que, segundo eles, seria o “candidato natural” ao cargo.

Em meio à instalação da CPI da Covid, a tropa de choque bolsonarista tentava afastar o foco da comissão do Planalto, defendendo que governadores fossem investigados. Alguns parlamentares pediram que Doria fosse convocado.

Ele gostou da ideia, vendo aí uma oportunidade de reiterar suas críticas a Bolsonaro em rede nacional: “Se for convocado, vai piorar muito a situação dos bolsonaristas”. A tropa de choque do presidente acabou desistindo de tentar fazê-lo depor.

Apesar das investigações da CPI, Bolsonaro continuava a promover seus passeios de moto pelo país. Durante as motociatas que realizava em São Paulo e aparições públicas no estado, o presidente era sempre multado pelo governo de Doria por não usar máscara.

Bolsonaro recebeu ao menos 7 multas. Cada vez que ele cometia uma nova infração sanitária, o valor a ser pago subia, e hoje chega a R$ 1,5 milhão.

À medida que se aproximavam as prévias do PSDB, Doria aumentou seus embates com seus adversários no partido.

Em junho, o governador foi derrotado na definição do modelo de votação. Ele defendia que o grupo de filiados sem mandato tivesse o mesmo peso do grupo de filiados com mandato. A Executiva Nacional, no entanto, optou por dar mais peso aos votos dos tucanos mandatários, atendendo a um desejo de Eduardo Leite e de Tasso Jereissati.

O principal inimigo de Doria no PSDB, Aécio Neves, se aliou a Leite na disputa. O deputado passou a fazer uma série de acusações ao governador, dizendo que ele havia traído Geraldo Alckmin e que era um desqualificado.

Em agosto, Aécio começou a acusar Doria de tentar comprar votos na disputa. O governador disse que as acusações eram mentirosas, que o deputado tinha a “síndrome da derrota” e era um bolsonarista enrustido.

Em setembro, Doria oficializou sua candidatura nas prévias em uma cerimônia em Brasília, prometendo “respeito à Constituição, ao Estado Democrático de Direito”, como uma alternativa a Lula e a Bolsonaro.

Tasso Jereissati, que também havia feito a inscrição, abandonou a disputa dias depois, anunciando apoio a Leite. O pleito também contava com a participação do ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que nunca teve chances de vencer.

Em outubro, Doria voltou a ser acusado de fraude na disputa. O diretório paulista do PSDB teria patrocinado a filiação de 92 prefeitos com datas retroativas, para que eles pudessem votar. A Comissão das Prévias decidiu excluí-los da votação.

Durante sua campanha, Doria, assim como Leite, viajou pelo país, em busca de votos do  tucanato remoto.

Em coletiva na Câmara de Vereadores de Guarabira, pequena cidade da Paraíba, o governador protagonizou um episódio que foi motivo de zombarias, ao questionar se alguém já havia ido para Dubai.

“Quem aqui já foi a Dubai? Se puder levantar o braço… Alguém já teve essa oportunidade?”

Ninguém levantou o braço.

Quando chegou o dia das prévias, o aplicativo que seria usado pelos filiados para votar apresentou uma série de problemas e a votação teve de ser suspensa. O episódio levantou ainda mais suspeitas sobre a lisura do processo e deixou mais evidente a falta de unidade do partido.

Uma empresa precisou ser contratada para fornecer um novo aplicativo para o pleito. Dessa vez, o sistema funcionou, e João Doria saiu vitorioso de uma batalha dura que deixou o PSDB em frangalhos.

Mesmo após o resultado, o governador de São Paulo manteve seu desempenho insignificante nas pesquisas, com menos de 2% das intenções de voto (calça apertadíssima), enquanto Sergio Moro deslanchava como o principal nome da Terceira Via.

Doria vai abrir mão da candidatura, se for convencido de que não tem chance e poderá repetir o fiasco de Geraldo Alckmin em 2018? Ele jura que sim, mas Moro vai enfrentar muito fogo amigo até o derradeiro instante.

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