Jerônimo Teixeira na Crusoé: Reações imoderadas
Na patética mobilização do governo em torno das mudanças nas redes sociais da Meta, teve até Lula sugerindo que as mulheres precisam de proteção especial contra as fake news
O Brasil tem crime organizado, milícias, cidades sem saneamento básico, epidemia de dengue, queimadas na Amazônia e no Pantanal e pontes que caem à toa.
Mas o risco maior que corremos, a ameaça mais grave a nosso democracia e nosso modo de vida, são as mudanças na moderação de conteúdo das redes sociais da Meta.
O fim da checagem de fatos, medida que de momento está sendo implementada só nos Estados Unidos, preocupou o governo brasileiro.
Uma reunião ministerial foi convocada pelo presidente. A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu esclarecimentos à Meta e parece que não gostou da resposta.
Teve até ministro sugerindo que as mudanças no Facebook são um atentado à soberania nacional.
O governo já empregava essa retórica ao tempo da ditadura militar, e ela não melhorou com a idade.
O ócio e o ódio
Na sexta-feira 10, Lula publicou no X a foto da tal reunião em que figuras de alto escalão do Poder Executivo discutiram um vídeo de cinco minutos de Zuckerberg.
“Todas as empresas que atuam no país precisam respeitar a legislação e a jurisdição brasileiras”, disse o presidente no texto que acompanhava a imagem.
Ele só não explicou como exatamente a empresa de Zuckerberg desrespeitou nossas leis.
A moderação de conteúdo passou de painéis de checadores anônimos para grupos de usuários também anônimos e, além de tudo, ociosos (do contrário, não teriam tempo para corrigir informações de graça).
Não entendo como isso fere a legislação brasileira.
Na segunda-feira, a AGU emitiu uma nota sobre a resposta que a Meta deu a seu pedido de esclarecimentos.
Manifestou preocupação com a “Política de Conduta de Ódio” (hein?) da empresa de Zuckerberg, que teria “o potencial efetivo de permitir graves violações dos direitos humanos no país”.
O governo agora está montando grupos de trabalho e chamando audiências públicas para tratar do tema.
Eu até me tranquilizo um pouco em saber disso: grupos de trabalho e audiências públicas tradicionalmente são o que o governo promove para mostrar ação sem fazer coisa nenhuma.
O sexo frágil
Na já citada publicação na casa de Musk, nosso presidente afirmou ainda que “as mudanças na política de checagem de fatos e notícias falsas (…) podem afetar crianças, adolescentes e mulheres, por exemplo”.
Depreende-se daí que esses três grupos são, como se diz no jargão moderno, precarizados. Precisam de proteção especial para não serem afetados pela maldade das redes sociais.
Crianças são animaizinhos crédulos.
Quando eu era criança, esperava pelo Papai Noel que trazia brinquedos e tinha medo do Velho do Saco que planejava me raptar. E eu nem reparava na óbvia semelhança entre esses dois entes fantásticos.
Adolescentes são poços de hormônios descontrolados.
Em geral, carecem de discernimento para filtrar o que leem e veem na internet e por isso se tornam presas fáceis para os líderes de seita hoje conhecidos como “influenciadores“.
Compreendo porque essas duas categorias etárias seriam especialmente suscetíveis às falsidades e perversidades que andam soltas pela redes sociais.
Por essas razões, aliás, sou simpático à proibição de celulares nas salas de aula.
Mas e as mulheres?
Lula coloca mulheres adultas no mesmo plano de desenvolvimento emocional e cognitivo que crianças e adolescentes.
São flores delicadas, que murcham quando tocadas pelas fake news.
Isso não é muito lisonjeiro com a Janja.
Os defensores mais ardentes de regulações estritas às redes sociais em geral concebem os usuários desses serviços como crianças grandes e adolescentes tardios.
Isso não vem de hoje. Já antes da internet, jornalistas e intelectuais tinham a mesma atitude condescendente em relação à massa ignara.
O grande corruptor então eram os chamados meios de comunicação de massa – imprensa, rádio e, sobretudo, televisão.
Reguladores e censores adotam uma teoria vulgar e simplista da manipulação.
Imaginam o cidadão comum como um boneco com cérebro de esponja, pronto para absorver acriticamente tudo o que encontra no Facebook, no Tik Tok, no WhatsApp.
Quem professa esse tipo de crença imagina que seu sistema de ideias é o correto e portanto está imune à mentira (ou às “narrativas”, como se diz hoje).
Existe de fato muito veneno nas redes sociais.
É falsa a noção libertária de que a voz livre do povo ganha expressão nas redes, que lá se encontram verdades que a imprensa estabelecida e as instituições querem nos esconder.
Nas redes – todas elas, qualquer uma delas –, vicejam agentes da mentira, cultores do ressentimento, serviçais de governos autocráticos, criadores e repetidores de teorias da conspiração, celebridades vendendo jogos de azar, abusadores e tarados, racismo, antissemitismo, homofobia, misoginia.
Só que a regulação idealizada por políticos e legisladores – quase todos com pouco ou nenhum conhecimento técnico sobre a internet – não resolverá esses problemas.
E será, sim, francamente censória.
Zuckerberg, aliás, está certo quando diz que a moderação de conteúdo censurava conteúdo legítimo. Eu mesmo já tive posts derrubados por bobagens e vi isso acontecer com muita gente.
Nem por isso confio no criador do Facebook. Sua redescoberta da liberdade de expressão me parece oportunista.
Minha avaliação do sistema de notas da comunidade segue em suspenso.
Como aquele tipo popular que virou meme no YouTube, eu acho que tá melhor, e já tava muito bom, disseram que ia mudar para melhor, pois tava ruim também, e agora parece que piorou.
Lamento apenas…
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Comentários (1)
Gastão Eduardo Carvalho
19.01.2025 10:41Até quando este idiota vai usar este chapéu panamá, querendo se equiparar a um ditadorzinho latino americano. Ridículo.