Jerônimo Teixeira na Crusoé: Os vícios do mercado das opiniões
Não adianta me perguntar sobre a roubalheira na Petrobras ou no INSS: meu negócio é examinar a corrupção do debate público
Opinião é um negócio bem vagabundo: todo mundo tem, sobre qualquer coisa.
Deve ter sido assim desde as cavernas: o bruto caçador olhava para as pinturas de Altamira e lascava o palpite: “Nem se compara com o que vi em Lascaux”.
(Todo mundo acha que é fácil falar de arte.)
O que mudou hoje é que temos uma variedade maior de meios para divulgar intuições vazias e impressões incertas. O smartphone com apps do X e do Instagram inflacionou as ideias feitas.
Também libertou as celebridades opinativas da necessidade de encontrar um jornal ou uma emissora que as abrigue e patrocine. Supostamente mais democrático, o novo mercado da opinião já consagrou uma próspera elite. Grosso modo, esses novos ricos se dividem em dois tipos principais.
O comerciante de platitudes edulcoradas
Não se imaginaria que, nos nossos tempos polarizados, haveria demanda por pontos de vista limpinhos, sem asperezas, sem arestas, sem sal.
Mas a embalagem valoriza o produto. A mais anódina platitude vende bem quando embrulhada no fino papel da Alta Cultura.
O comerciante de platitudes edulcoradas em geral se formou nos departamentos universitários de humanidades.
Talvez tenha até produzido obras relevantes – até descobrir que, entre nossas classes médias medianamente intelectualizadas, a cultura vende menos do que o verniz cultural.
Desembargadores com pretensões literárias, operadores do mercado que desejam se distinguir do filistinismo dos faria limers, velhas socialites e jovens dondocas, entre outras categorias privilegiadas, formam o público consumidor das platitudes edulcoradas.
Para atender a todos, o comerciante do ramo diversifica suas atividades: publica livros, fala no rádio e na TV e compartilha sua sabedoria nas redes sociais
Com a habilidade oratória desenvolvida nas salas de aula, o comerciante de platitudes edulcoradas também engrossa o circuito de palestras corporativas e de cursos chiques.
Nessa atividade, o segredo está em conjugar erudição ligeira com uma dose equilibrada de auto-ajuda.
E assim o ouvinte sai da sala de conferências com a sensação de que seu tempo e dinheiro foram empregados no “crescimento interior”.
Talvez até acredite que uma meia dúzia de máximas de Sêneca e alguns parágrafos de Proust bastam para resgatá-lo da mediocridade de seus dias.
O guerreiro cultural profissional
A formação desse outro tipo profissional varia conforme suas propensões ideológicas. Os guerreiros do front esquerdo também vêm de cursos de humanidades, embora se sintam melhor no YouTube do que na cátedra.
No trincheira oposta, temos muitos jornalistas e uma penca de figuras com qualificações obtidas em duvidosos “institutos liberais”.
Embora se apresente com um polemista, o guerreiro cultural profissional quer distância do verdadeiro debate de ideias. Sua moeda corrente é o xingamento, não o argumento.
Marqueteiro polivalente, o guerreiro cultural profissional cultiva dois públicos distintos: aquele que o aplaude e aquele que o odeia. Pois se perder os haters, ele será abandonado por seus seguidores.
A opinião do guerreiro cultural é dura, definitiva, desprovida de nuance e impermeável à razão. Acusá-lo de mentir – ou de “espalhar fake news”, como se diz por aí – é uma fatuidade: a verdade factual não é uma commodity em seu sistema comercial.
O que guerreiro cultural profissional diz…
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