Jerônimo Teixeira na Crusoé: O paradoxo do turista
A viagem de lazer pode ser enriquecedora para o indivíduo, mas o turismo, como fenômeno coletivo, é culturalmente vazio
Um passo separa a mesquita da igreja.
Percorremos uma sucessão de arcos em ferradura pintados de vermelho e branco, que convidavam nosso olhar a se perder na distância. O infinito cabia nos 180 metros de comprimento da mesquita.
Subitamente, abriu-se uma clareira em meio às colunas que sustentam os arcos, e nos encontramos diante de um altar cristão guardado por esculturas de um anjo, um leão, um touro e uma águia (alegorias dos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João). Sobre nossas cabeças, um domo italiano – uma incongruência em meio à arquitetura islâmica (mais propriamente, moçárabe) da Mesquita de Córdoba (foto).
Ornamento do mundo
A Mesquita de Córdoba, embora ainda conhecida por este nome, já não abriga cerimônias muçulmanas há séculos.
Fundada em 786 pelo emir Abd al-Rahman e ampliada sucessivas vezes por seus sucessores, ela foi reconsagrada como templo católico em 1236, quando Fernando III de Castela tomou Córdoba.
A rigor, portanto, não existe separação entre igreja católica e mesquita. É tudo igreja – aliás, mais do que isso: a casa onde os muçulmanos faziam suas orações converteu-se na Catedral de Nuestra Señora de la Asunción.
No entanto, quando estive lá com minha minha mulher, em 2005, experimentei um estranhamento singular sob o domo italiano projetado por um discípulo de Michelangelo. Senti que iluminação e arquitetura marcavam um rompimento abrupto, violento até, entre eras históricas.
Poucos anos antes da viagem, eu havia lido O Ornamento do Mundo, de María Rosa Menocal, acadêmica de Yale. Nesta história cultural de al-Andalus, a Espanha islâmica medieval, a autora pinta o retrato de um oásis de tolerância, no qual muçulmanos, judeus e cristãos conviviam e realizavam trocas culturais inimagináveis no restante da Europa cristã e impossíveis nos domínios muçulmanos do Oriente Médio e do norte da África.
Tolerância, adverte Menocal, não…
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