Jerônimo Teixeira na Crusoé: A primeira mulher trans a ser cancelada
Celebrada nas indicações ao Oscar, Karla Sofía Gascón, atriz de Emilia Pérez, caiu em desgraça por obra de uma jornalista militante
Estou me divertindo com o barulho em torno do filme Emilia Pérez.
A consagração antecipada do musical no Oscar – foi a produção que mais recebeu indicações ao prêmio – seguida da execração pública à sua atriz seria trágica se não fosse ridícula, como é sempre o caso quando o progressismo dodói dita as normas.
Um filme montado pelo departamento de DEI
Uma história mexicana dirigida por um francês e estrelada por atrizes americanas de ascendência latina: Emilia Pérez parece uma produção montada por um daqueles departamentos de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) que o governo Donald Trump deseja desmantelar.
É verdade que a última letra da sigla DEI deixou de contemplar os mexicanos. Eles foram excluídos do elenco principal, apesar da história se desenrolar no México.
Mas que importa quando se têm a espanhola Karla Sofía Gascón no papel título?
Primeira mulher trans a concorrer ao Oscar de atriz principal, Gascón certamente foi essencial para que o filme acumulasse outras doze indicações. Pois, na perspectiva do progressismo identitário, o trans é a Identidade por excelência – e com maiúscula.
Gascón tropeça no X
Mas então emergiram os tuítes antigos de Gascón. E eles não traziam as opiniões luminosas e limpas que se espera de uma mulher oprimida pelo patriarcado.
Do Black Lives Matter ao filme Barbie, a espanhola chutou todos os santos para os quais Hollywood acende aquelas velas com odores femininos produzidas por Gwyneth Paltrow.
Se essa história fosse uma obra de ficção – digamos, um filme que satirize as sandices identitárias, como o divertido Ficção Americana –, pareceria caricatural fazer com que uma jornalista negra muçulmana do Canadá (aquela terra woke que Trump sonha em anexar aos Estados Unidos) fosse responsável por revelar os tuítes supostamente racistas e islamofóbicos de Gascón.
Mas foi assim mesmo que aconteceu.
A investigadora de rede social
A jornalista Sarah Hagi é negra, canadense e muçulmana.
Ela mantém um podcast chamado Scamfluencers (algo como “influenciadores golpistas”), que recentemente dedicou um episódio a Eike Batista (vou ouvir e depois conto a vocês que tal é).
Em entrevista à revista Variety, ela diz que certa palavra usada por Gascón não sei onde foi um “gatilho” para ela, que é muçulmana e negra. Sentiu que era seu dever investigar o que a atriz pensava.
Pesquisou palavras-chave como “hijab” e “muçulmano” nas publicações de Gascón no X entre 2016 (quando a rede ainda se chamava Twitter) e 2023. Jornalismo investigativo!
Pelo que a própria Sarah diz, Gascón não era uma personalidade de rede social. Seus tuítes alcançavam no máximo duzentas visualizações e duas ou três curtidas.
A jornalista considerou uma afronta que os tuítes estivessem lá, quietinhos, sem que ninguém tomasse conhecimento deles.
Como que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não investiga o que uma atriz pensa antes de indicá-la ao Oscar?
A jornalista ficou ainda mais espevitada quando Gascón, em sua atabalhoada tentativa de se defender das críticas que vem recebendo desde que os tuítes foram denunciados, disse que “a luz vence a escuridão”. Seria uma frase inapropriada para quem foi acusada de racismo.
A oposição é entre “luz” e “escuridão“. “Luz”, não “branco“, nem muito menos “branquitude”.
Na leitura militante, porém, “escuridão” sempre dirá respeito à cor da pele.
A polícia ideológica proíbe que essa palavra ocupe mais de um campo semântico.
Enfim, a hipocrisia
Tenho pouco interesse em discutir o que Gascón disse ou não disse. Se eu desse importância à opinião de diretores, atores e roteiristas, talvez nunca mais visse um só filme.
É a visão de mundo de Sarah Hagi que me assusta.
Ela pede que as instituições que oferecem prêmios artísticos investiguem previamente os possíveis premiados para verificar se suas opiniões são aceitáveis.
Por que parar aí? Seria o caso também de reconfigurar os departamentos de Recursos Humanos para que façam auditorias nas redes sociais de candidatos a emprego.
Sim, eu sei: isso já acontece em muitas empresas. Mas acho desalentador que seja assim.
(Comecei o texto dizendo que estava me divertindo com todo o escândalo em torno da atriz de Emilia Pérez. Foi só escrever sobre o tema para ficar deprimido. Que droga.)
Gascón não é Kanye West
O pensamento militante não vê nuances e não faz distinções. Por isso é tão empobrecedor.
Kanye West me fez o favor de oferecer um bom termo de comparação.
O rapper outro dia se…
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