Jerônimo Teixeira na Crusoé: A era da pós-hipocrisia
A dissimulação do político hipócrita deu lugar à desfaçatez dos populistas que, com descaramento cínico, borram as linhas da moralidade
A hipocrisia está em baixa. Na política mundial, o hipócrita tornou-se item tão raro quanto um trevo de quatro folhas, uma ave dodô, um unicórnio. É uma pena.
Prevejo contestações indignadas e objeções enfáticas a meu breve parágrafo de abertura.
Como assim, não há mais hipocrisia na política? Está aí Lula, que enche a boca para falar em “defesa da democracia” mas chama o ditador chinês Xi Jinping de “companheiro” e viaja a Moscou para aplaudir uma parada militar de Vladimir Putin.
No campo ideológico oposto, temos Donald Trump, que, por meio de decretos presidenciais e ações judiciais, ataca a liberdade de imprensa, cerceia a autonomia das universidades e silencia (ou demite) funcionários públicos que o contrariam.
A despeito disso tudo, o Laranjão ainda se apresenta como um defensor da liberdade de expressão, e seu Departamento de Estado comete o desplante de acusar transgressões desse princípio no Brasil.
Mais grave: ainda que os hipócritas estivessem mesmo saindo de cena, por que alguém diria que isso é uma pena? Hipocrisia nunca foi considerada uma virtude.
Entendo todas as contestações e objeções. Afinal, faz pouco mais de dois meses, afirmei aqui mesmo que “a direita populista é hipócrita em sua defesa da liberdade de expressão”.
Bem, revisei esse ponto de vista. Hoje penso que os populismos de direita e de esquerda ultrapassaram a hipocrisia para abraçar a desfaçatez e o cinismo.
Mas devagar. Para não me perder em abstrações, começo examinando uma das criaturas raras de que falei acima: um boto cor de rosa da política europeia.
O santarrão de cuecas
József Szájer foi membro fundador do Fidesz, o partido do presidente da Hungria, Viktor Orbán, e serviu como deputado no Parlamento Europeu de 2004 a 2020.
Foi Szájer que redigiu a Constituição húngara que, promulgada em 2012, limitou o espaço para fazer oposição a Orbán. A tarefa foi realizada em um iPad, ao longo das viagens de trem que o solitário constituinte fazia entre Budapeste e as duas sedes do Parlamento europeu, em Estrasburgo e Bruxelas.
De acordo com os princípios…
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