Igor Sabino na Crusoé: O velho antissemitismo cristão, 60 anos depois
Documento aprovado pelo papa Leão XIV afirma que “a aliança de Deus com o povo hebraico é irrevogável” para combater antissemitismo
Três importantes órgãos da Santa Sé publicaram conjuntamente a nota Um caminho de esperança, na semana passada.
Aprovado pelo papa Leão XIV, o documento faz um balanço dos sessenta anos de Nostra aetate, declaração promulgada durante o Concílio Vaticano II, em 28 de outubro de 1965.
Embora hoje seja lembrada como um marco do diálogo da Igreja Católica com outras religiões, Nostra aetate teve uma origem mais específica.
Como recorda a nova nota, sua elaboração começou como uma resposta às “trágicas consequências do antissemitismo culminado na Shoah [o Holocausto de judeus na Segunda Guerra]”.
Nostra aetate
Depois de um encontro com o historiador judeu francês Jules Isaac, o papa João XXIII encarregou o cardeal Augustin Bea de preparar um texto que ajudasse a sanar as relações entre a Igreja e o povo judeu.
O resultado foi um dos documentos mais importantes para as relações judaico-cristãs em quase dois mil anos de história.
Nostra aetate reafirmou as raízes judaicas do cristianismo, rejeitou a responsabilização coletiva dos judeus pela morte de Jesus e condenou o antissemitismo.
Nas décadas seguintes, esse caminho seria aprofundado pela Igreja, inclusive com a reafirmação de que a Aliança de Deus com o povo judeu não foi revogada.
Sessenta anos depois, porém, algumas dessas conquistas parecem novamente sob pressão.
A Santa Sé reconhece isso. Em uma das passagens mais importantes de Um caminho de esperança, a instituição afirma que os conflitos que nos últimos anos “incendeiam o Oriente Médio” deixaram marcas no diálogo judaico-cristão. “Muitas pontes de comunicação vacilaram”, diz o documento.
De fato, o massacre de 7 de outubro de 2023 e a guerra que se seguiu na Faixa de Gaza tornaram as relações entre judeus e cristãos mais difíceis.
Ao sofrimento dos civis palestinos e aos questionamentos sobre a condução da guerra por Israel somou-se uma nova onda de antissemitismo ao redor do mundo. E uma parte particularmente desconfortável desse fenômeno surgiu dentro do cristianismo.
Estereótipos
O problema atravessa fronteiras políticas. Personalidades e movimentos da extrema-direita voltaram a recorrer a estereótipos que, durante séculos, fizeram parte do repertório do antijudaísmo cristão.
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