Gustavo Nogy na Crusoé: Todo escritor já nasce obsoleto
Mais um ou dois anos, três ou quatro, no máximo, e não haverá escritor que rivalize com o Claude, o Perplexity, o ChatGPT e congêneres
Leio que a Microsoft publicou uma lista onde constam as quarenta jurássicas profissões ou atividades à beira da extinção. Motivo?
Os meteoros da inteligência artificial generativa – que fazem mais, em menos tempo, com melhores resultados.
Dentre os bichos ameaçados estão os redatores, revisores, tradutores, authors.
Mais um ou dois anos, três ou quatro, no máximo, e não haverá escritor que rivalize com o Claude, o Perplexity, o ChatGPT e congêneres.
Agradeço a preocupação da empresa, mas quero minha parte em dinheiro.
Porque todo escritor, bom ou ruim, hábil ou canhestro, urbano ou rural, grande ou pequeno, vivo ou morto, já nasce obsoleto.
Talvez os engenheiros de prompt da Microsoft e de suas rivais não saibam, mas antes de mim, antes deles, antes de Claude, houve, digamos Marcel Proust.
Já ouviram falar? No tempo de Proust, também James Joyce, Thomas Mann, Robert Musil, Franz Kafka.
Um pouco depois, Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez. Entre os listados, tantos outros que não listarei, neste meu rol em que caberiam mais de quarenta, mas não vou fingir erudição.
Não custa lembrar que antes deles bebeu, jogou e escreveu, não necessariamente nessa ordem, um certo russo chamado Fiódor Dostoiévski, que rivalizava com outro russo, chamado Liev Tolstói, dado a utopias e a sermões.
Talvez não tivessem existido se não tivesse existido um certo ator inglês, que não se sabe bem quem foi, mas que atendia pelo nome de William Shakespeare.
Shakespeare que leu (ou não leu?) o contemporâneo Michel de Montaigne, que inventou os ensaios, e publicou três volumes intitulados, vejam só, Ensaios, e com eles criaria um gênero novo para uma sensibilidade nova, que viria bem a calhar ao já mencionado inglês, que por sua vez “inventaria o humano”, na modesta sentença do crítico Harold Bloom.
Harold Bloom que lia tudo e julgava tudo…
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