Gustavo Nogy na Crusoé: Quando descobrir a verdade é o próprio crime
Tratada como passatempo, literatura policial é, ou pode ser, literatura – sem adversativas nem reducionismos
No excêntrico romance do japonês Keigo Higashino, A Devoção do Suspeito X, todos os elementos estão ali: há um crime; há um suspeito; há um detetive; há um cúmplice; há um mistério.
Mas os ingredientes que fazem a literatura policial ser criticada por suas convenções foram misturados de tal maneira que, desde as primeiras páginas, sabemos quem matou quem, quem é cúmplice de quem, quais são os indícios deixados para quem, mas continuamos a ler assim mesmo.
Com tudo às claras, a tensão se dá entre um genial e solitário matemático, cúmplice de sua vizinha, e um também genial e extrovertido físico, consultor dos policiais que, atordoados, não sabem juntar as peças embaralhadas à sua frente.
Mas, ora: se sabemos o que de fato aconteceu, qual é a graça de ler esse livro? O que de fato se quer descobrir e esconder não é o crime, mas a própria ideia de verdade.
Já voltamos.
Tratada como passatempo, guilty pleasure de acadêmicos destrinchadores de James Joyce, a literatura policial é, ou pode ser, literatura – sem adversativas nem reducionismos.
Otto Maria Carpeaux, scholar austríaco radicado e morto no Brasil, insuspeito de interesses fortuitos e populismos estéticos, foi leitor voraz.
Na saudosa revista Senhor, defendeu e justificou “os prazeres do crime”.
Jorge Luis Borges, escritor de escritores, lia e escrevia contos de detetives à sua maneira.
Desde que Edgar Allan Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue, o (assim etiquetado) gênero policial multiplicou leitores e escritores, adeptos fervorosos e quase sempre envergonhados, como se se tratasse de passatempo vulgar, praticado no descanso de outras atividades de respeito intelectual.
Bobagem.
Primeiro, porque existem autores, tramas, propostas e esquemas para todos os gostos e exigências.
Segundo, porque os temas recorrentes e suas variações são universais: morte, medo, amor, verdade, ordem, moral, redenção. (O que será Crime e Castigo, do seríssimo Fiódor Dostoiévski, senão uma espécie de noir russo?)
No Brasil, temos Raphael Montes…
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