Gustavo Nogy na Crusoé: Quando a esperança se transforma em vício
Em "O Deserto dos Tártaros", Dino Bruzzarti mostra que a esperança de dar sentido à vida pode ser o próprio motivo do desespero
Caso não sejamos niilistas convictos, vivemos o dia a dia à espera e à espreita de qualquer coisa que nos justifique.
Uma vitória, uma dor, uma fé, um sacrifício, uma profissão, até mesmo um fracasso, contanto que seja um glorioso fracasso.
Ou a guerra – por que não a guerra? A cada um caberá a sua sentença, eis o ditado. Mas os ditados dizem pouco.
É disso que trata o estranho livro O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati.
Sobre o autor, sabemos que estudou direito e foi jornalista; publicou crítica de arte e roteiros de cinema; foi correspondente de guerra e ilustrador.
Nas horas vagas, escreveu uma discreta obra-prima.
Um oficial de baixo escalão, Giovanni Drogo, é destacado para um posto desimportante num Forte esquecido, num ponto qualquer entre a cidadezinha em que nasceu e o deserto donde surgiriam os perigos da batalha e a quase mítica invasão dos tártaros.
Drogo chega ao Forte Bastiani ansioso por aventuras austeras. Ao perceber que pouca coisa de notável aconteceria naquelas dependências ou em seus arredores, toma a decisão de partir, cumpridos os quatro meses iniciais de serviço.
Transcorrido esse prazo, apresenta-se ao médico para obter o atestado que o liberaria.
Súbito, desiste de desistir. Fica. Ficando, é enredado por um sentimento que oscila entre a acídia e a curiosidade.
O tempo transcorre lenta e rapidamente; os minutos se confundem com as horas e estas com os dias; meses e semanas não se distinguem de anos e décadas.
Então o herói aos poucos se adapta aos regulamentos, às regras, aos códigos, aos hábitos, aos vícios, às ordens, aos colegas, aos quase amigos, à inércia sedutora daquele universo.
Mais do que adaptação, parece nascer mesmo algum tipo de amor.
O forte é seu mundo e o mundo, por sua vez, é que se…
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