Gustavo Nogy na Crusoé: O quanto esconde ou revela uma conjunção adversativa?
Uma escolha vocabular malandra pode desmentir a mais santa das intenções
Um pouco por instinto, um pouco por princípio, um pouco por chatice, um pouco por preguiça, já não presto atenção nas ideias políticas que as pessoas pregam ou criticam.
Sinto muito.
Sinto muito coisíssima nenhuma.
Por que eu prestaria atenção em ideias que não prestam para nada?
A depender de onde estiverem posicionados os peões e os reis, os bispos e os cavalos, as damas e as torres no tabuleiro político, jurídico ou eleitoral da circunstância, livre-mercadistas defenderão políticas intervencionistas, libertários justificarão medidas autoritárias, progressistas comemorarão retrocessos, garantistas exigirão punições, punitivistas clamarão por anistia, conservadores perdoarão promíscuos.
O que chamamos de “ideias”, especialmente de “ideias políticas”, algumas vezes, muitas vezes, quase todas as vezes são apenas a embalagem minuciosamente projetada para desviar nossa atenção da composição nutricional do produto.
Antes do que é dito, me interesso pela forma com que se diz, porque uma escolha vocabular malandra pode desmentir a mais santa das intenções.
Consideremos o uso das conjunções adversativas. Vocês sabem quais são: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, senão, não obstante, apesar disso, ao passo que, antes, em todo caso. Me esqueci de alguma?
Fiquemos com a mais comum e comumente invocada: “mas”.
Ah! Quantas coisas – ações, omissões, preconceitos, capitulações, filosofias – vêm depois dessas três letrinhas!
O doutor e a doutora recomendam isso e aquilo, mas…
O especialista e a especialista ensinam isso e aquilo, mas…
O idealista e a idealista não abrem mão disso ou daquilo, mas…
Liberdade de expressão? Censura? Todos defendem liberdade de expressão irrestrita, todos são contra qualquer tipo de censura, mas – não se faz piada com isso, não se faz gracinha com aquilo; com esta religião se mexe, mas com aquela não.
Terrorismo? Guerra ao terrorismo? Ninguém concorda com a morte de inocentes, mas – quem começou a briga foi o outro, estou defendendo meu povo; sou pacífico, mas eles não são são.
Democracia? Golpe? Qualquer um é contra o autoritarismo, mas – tivemos que suspender por uns minutinhos ou décadas a democracia para proteger a democracia; tivemos que ser duros, mas sem perder a ternura.
Informação? Desinformação? O povo não deve ser tutelado, mas – se as mídias e redes não forem reguladas, como distinguir a verdade…
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