Gustavo Nogy na Crusoé: O dinizismo como ideia
Torcedores de times treinados por Diniz sempre passam pelos cinco estágios do luto
(Para João Farah, que discordará)
Para quem gosta de futebol, esta crônica trata de futebol; para quem não gosta de futebol, esta crônica trata de obsessões.
Fernando Diniz é uma figura intrigante e instigante. É, mas não deveria ser, como o Brasil de Geisel: “Ame-o ou deixe-o”.
Mais do que um treinador de futebol, é o João Batista de uma fé: a de que a afirmação de um estilo transcende a casualidade das vitórias; a de que a trajetória importa do que o destino; a de que o conteúdo deve se submeter à forma; a de que o desempenho se justifica sobre os títulos.
Espartanos e atenienses dividem-se no que me parece um falso dilema: o futebol de resultado versus o futebol bem jogado (para alguns, “bonito”, o que é ainda mais subjetivo).
O involuntário culpado disso foi Pep Guardiola, que assombrou o mundo da bola com seu Barcelona inexpugnável.
Ganhou tudo o que pôde e, sobretudo, ganhou como quis. A sinergia entre suas ideias e os pés de Xavi, Iniesta, Messi e grande elenco, entre a proposta ambiciosa e a execução perfeita, foi dessas que poucas vezes se viram num time de futebol.
Com sua noção horizontal de jogo – sua, por assim dizer, espacialização da disputa –, conceitos como posse e troca de passes foram se transformando em dogmas de fazer inveja a Torquemadas. Questioná-los (na época) virou anátema.
De repente, havia um novo vocabulário e uma nova epistemologia das quatro linhas.
O improviso caiu de moda. No futebol contemporâneo, o drible inobjetivo de Garrincha, o drible mais-valia das pernas tortas, teria de ser domesticado; a bruta velocidade dos pontas, a finalização do centroavante trombador, viraram coisa de saudosistas.
Ocorre que, tal como Marx não era marxista e Cristo não era cristão, Guardiola não é guardiolista: o que aperfeiçoou da escola holandesa lhe serviu naquele momento, mas serviu porque trouxe a ele o que ele queria e sempre quer: vencer, vencer, vencer.
Ele é viciado em resultados. O ponto é que achou o seu jeito de chegar aos resultados.
Mundo afora…
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