Gustavo Nogy na Crusoé: Não quero saber o sentido da vida num sábado à tarde
O homem, que esperava com paciência suspeita, olhou bem para mim, olhou bem nos meus olhos e, com sorriso que pretendeu cúmplice..
Trabalhar em biblioteca pública foi uma das experiências mais aterroriz… fascinantes que tive na vida. Infelizmente durou pouco. Dois anos. Ou dois séculos? Já não me lembro.
É preciso dizer logo, para que não restem expectativas nem romantismos: bibliotecário não é o tipo de gente que lê incessantemente quando não está bocejando, ou que boceja incessantemente quando não está lendo.
Antes de começar, sonhava com tardes inteiras lendo os contos do Jorge Luis Borges ou os ensaios do George Steiner. Depois de começar, tinha pesadelos com caixas pesadíssimas em que havia de tudo, menos Jorge Luis Borges ou George Steiner.
Porque bibliotecários e técnicos em biblioteconomia carregam, abrem e fecham caixas.
Processam dados.
Discutem com secretários de Educação e Cultura.
Humilham-se por verbas humilhantes.
Elaboram listas minuciosas de compras que serão minuciosamente ignoradas.
Mandam a impressora para o conserto.
Recebem a impressora quebrada.
Bibliotecas, de vez em quando, são lugares onde se lê, mas quase sempre são lugares onde entra gente esquisita.
Essa, estou convencido, é a vocação fundamental da biblioteca pública: servir de abrigo temporário, sanatório de passagem, ponto de confraternização para gente clinicamente doida, metafisicamente doida, poeticamente doida.
Algumas até passam em concurso e aparecem para trabalhar; outras, para ler; outras, para conversar; outras simplesmente ficam ali.
E as pessoas querem falar de si, da vida alheia, dos parentes, dos parentes dos outros, do Código da Vinci, da política, da falta de política. E, se calhar, dos Cinquenta Tons de Cinza. Não brinco.
Em bibliotecas públicas, chamamos os leitores de “usuários”. Não julgo, constato.
Certa vez, num sábado, quinze minutos antes de fechar, entram duas pessoas. Enquanto eu atendia a primeira, interessada em “psicologia” – et pour cause –, a segunda me observava.
A moça queria…
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