Gustavo Nogy na Crusoé: Formação e deformação de um caráter
John Williams escreve com visualidade cinematográfica, mas sem as urgências do cinema. Ele nos dá tempo para fruir e sofrer
Gosto de ler romances e gosto ainda mais de ler “romances de formação”.
O termo vem do alemão, bildungsroman, caracteriza um tipo de narrativa que trata do desenvolvimento psicológico e moral do protagonista.
A ideia de uma personalidade em construção, e dos embates em que as forças morais e cognitivas de um personagem se resolvem (ou não se resolvem) num caráter amadurecido.
Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, é o texto fundador.
Também da Alemanha viria o meu preferido no gênero: A montanha mágica, de Thomas Mann.
O cult O apanhador no campo de centeio, do J. D. Salinger, traz uma versão mais ordinária ao gênero.
A tetralogia napolitana da quase anônima Elena Ferrante fez ressurgir o interesse. Há outros exemplos, inclusive brasileiros, um dos quais indicarei aqui numa próxima crônica.
Aos interessados, aliás, recomendo o livro de Franco Moretti sobre o tema, O romance de formação, publicado pela Companhia das Letras em 2020.
Mas todo este preâmbulo serviu para dizer que devo à extinta editora Rádio Londres a chance de confessar que demorei a descobrir John Williams.
Imploro misericórdia e me retrato de tão grave embora culposo erro. Se, no dia do juízo, Deus tiver critérios também literários com os quais julgar as almas, desconhecer o escritor americano contará como pecado capital. E será muito bem-feito aos impenitentes.
Encontrei a fé com Stoner, história do filho de camponeses que deixa a fazenda para se transformar num medíocre estudante universitário, que terminará como um medíocre professor universitário.
Sim, parece chatíssimo. Não, não é chatíssimo. Acompanhamos as poucas vitórias e as muitas derrotas íntimas do anti-herói com um sentimento muito próximo do amor.
Embora convertido, confesso outro pecado: mesmo tendo visto – ou lido – o primeiro milagre, ainda assim duvidei do santo e abri com alguma desconfiança outro de seus livros: Butcher’s Crossing.
O porquê da desconfiança? O enredo me sugeria regionalismos apimentados demais para o meu apetite literário: a história de um rapaz que desiste da vida acadêmica e chega a uma cidadezinha no Kansas para ter lá uma experiência mais vívida da vida? Ora, por favor.
Ora, por favor, leiam o quanto antes.
Butcher’s Crossing é ainda melhor…
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