Gustavo Nogy na Crusoé: Explicando a piada
Se atacam as manifestações artísticas e ideológicas alheias, acatamos bíblias, códigos penais e a cartilha de educação moral & cívica
Não sei se foi o excesso de filmes de kung fu durante a infância, se o tosco e hoje cult primeiro Rocky, se as patrióticas narrações de Luciano do Valle durante a agridoce trajetória de Maguila, ou se os arroubos vocais de Galvão Bueno quando transmitiam a ferocidade do jovem Mike Tyson, mas o fato é que gosto de brigas.
Principalmente das que não participo.
E não gosto dos socos e pontapés apenas nos ringues e nos cinemas, mas também do pugilato retórico que acontece na arena pública, naquilo que se convencionou chamar de, aspas, debate, e se parece cada vez mais com uma rinha de galos depois da harmonização facial.
Das vias de fato aos desvios dos fatos com que certos argumentos vão sendo construídos, para defender ou atacar esta ou aquela tese, muito se aprende, e aprende-se ainda mais quando os envolvidos, sem que percebam ou se importem, assumem posturas, elaboram estratégias e berram princípios que, mutatis mutandis – traduzindo: mexendo uma coisinha aqui, mudando outro negocinho ali – contrariariam posturas, estratégias e princípios já defendidos.
Se atacam nossas manifestações artísticas e ideológicas, invocamos a memória de John Milton, Voltaire e Dercy Gonçalves.
Se atacam as manifestações artísticas e ideológicas alheias, acatamos bíblias, códigos penais e a cartilha de educação moral & cívica.
De todos os argumentos, o mais obtuso e mais usado por vereadores e deputados, mas também por artistas ou intelectuais, é o seguinte: “O limite é a Lei!” – como se não soubéssemos como, com quais ingredientes e por quem as leis e as salsichas são feitas.
A impostação vocal de quem pronuncia a platitude não deixa passar despercebido que se diz Lei com inicial maiúscula, e o debate é apressadamente encerrado não com um ponto final, mas um retumbante ponto de exclamação, para que fique muito claro que não estamos para hermenêuticas.
Um ou dois minutos de atenção às polêmicas que nos são selecionadas pelos algoritmos, e nos emocionamos com os girondinos a defender apaixonadamente sua fé na liberdade de se fazer piadas sobre tudo e qualquer coisa, do Holocausto à hidrocefalia, da escravidão à misoginia.
Mais um ou dois minutos e nos deixamos seduzir pelos jacobinos, que distribuem panfletos em defesa irrestrita daqueles que supostamente fazem apologia ao crime em letras de funk, e que também fazem apologia ao advérbio “supostamente”, quebra-galho moral em tantas enrascadas.
Quem tiver paciência e senso de humor suficientes, basta esperar sentadinho com um manual do Areopagítica ao colo. Os primeiros, defensores de piadas, opiniões e incorreções políticas invocarão a lei contra os segundos, defensores de rimas, apologias e correções políticas. E vice-versa.
Para uns, não se pode confundir humor sobre preconceito racial com preconceito de fato.
Para outros, não se pode confundir rimas sobre objetificação da mulher com objetificação de fato. Para a direita, crime é crime. Para a esquerda, crime é crime. Entenderam?
É tudo uma questão de quais manifestações – opiniões, piadas, versos, rimas, rinhas, panfletos, podcasts, performances, exposições…
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