Gustavo Nogy na Crusoé: Encontro marcado com a angústia
Texto urbano, esperto, de frases limpas, de melancolia adolescente, mas de um tempo em que adolescentes tinham tempo para ficar melancólicos
Existem livros que vêm e vão. Existem livros que ficam. Em 1956, era publicada a primeira edição do romance O Encontro Marcado, mistura de Bildungsroman, autobiografia mal disfarçada e memória projetada de uma geração, escrito pelo mineiro Fernando Sabino.
De lá pra cá, mais de 100 edições e 500 mil exemplares vendidos.
Texto urbano, esperto, de frases limpas, de melancolia adolescente, mas de um tempo em que adolescentes tinham tempo para ficar melancólicos, entediados, metafísicos, e entenderiam e evitariam o vexame de se gravar dancinhas em rede social.
Sabino antecipou o mood de outros livros que vieram depois, como o muito falado, lido e vendido, hoje quase esquecido, High Fidelity [Alta Fidelidade], do inglês Nick Hornby, e de filmes (para quem nasceu agora há pouco e precisa doutras referências mais reconhecíveis) como os de Jim Jarmusch e, principalmente, Noah Baumbach.
A nostalgia e o apego, as questões existenciais misturadas aos anseios banais, a dificuldade de adaptação, a amizade e a perda da amizade, a juventude que mal chegou e se esvai, os amores difíceis e risíveis. Aquela situação (que não sei ainda existe, entre essa meninada cheia de certezas e cinismos) de filosofar sobre a vida e a morte, o ser e o nada, Deus e o diabo.
Tudo o que importa sentir e pensar numa certa altura da vida, tão fugaz quanto intensa, está nesse romance.
Quando eu o li, andava às voltas com a fé que balançava, com as primeiras leituras de Nietzsche e Sartre, com as ansiedades cotidianas e a solidão entre iguais.
Eu “puxava angústia” todos os dias, na calçada da rua, com os amigos, como Eduardo Marciano, alter ego do próprio escritor. A vida me doía, sem saber direito onde doía.
Me lembro de uma inquietação funda, amarelada, sem desespero, de quem percebe que o tempo passa, os amigos passam, os amores…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)