Gustavo Nogy na Crusoé: Chegou a hora de me despedir
Ao longo dos anos, o acúmulo de livros se transforma em uma das grandes questões de quem gosta de discutir “as grandes questões”
Minha primeira vez foi aos 14 anos.
Juntei uns trocados, me vesti ansioso, saí apressado, atravessei uma portinha, entrei num corredor, chamei com timidez e, de lá do fundo, como se do fundo da alegórica caverna platônica, apareceu o homem que me venderia os dois volumes da História da Filosofia, escritos pelo americano Will Durant, e publicados no Brasil pela extinta Companhia Editora Nacional, na coleção Biblioteca do Espírito Moderno, em 1959.
Foi a primeira vez que paguei por… livro. Foi minha primeira vez num sebo.
Tenho-os comigo até hoje. Durant foi um historiador americano bastante típico, com a ingenuidade que só os americanos têm quando tratam de educação liberal, desenvolvimento, progresso, idealismo, humanidade.
Sua História da Filosofia – Vida e Ideias dos Grandes Filósofos não é rigorosa cientificamente, e ele acredita um pouquinho demais na coisa emersoniana dos “homens notáveis”.
Mas que empolga, empolga. Principalmente um menino magrinho e já incomodado, desde cedo, com as “grandes questões”.
Seja como for, mais do que a bagunça de ideias que aquelas páginas me arrumaram, outra bagunça começaria ali: a de ter livros, juntar livros, possuir livros.
Livros passaram a ser meu objeto predileto desde então. Novos, velhos, imaculados, rabiscados, dedicados, ignorados, bonitos, feios.
No meu caso, a doença da bibliofilia não tem nada de muito excêntrico. Não faço questão de edições valiosas ou primeiras, de assuntos ou períodos específicos.
Não vou a leilões, nem reviro antiquários à procura de raridades.
O que acontece é que gosto de ler, de ter a companhia dos livros, de me intrigar com assuntos ou disciplinas que desconheço, de confirmar hipóteses que conheço, de me perder em referências, notas de rodapé e índices onomásticos.
Convenhamos, existem prazeres mais esquisitos.
Mas livros ocupam lugar no espaço, como se sabe. Tentei e não consegui gostar dos digitais.
Aos poucos, ao longo dos anos, o acúmulo de livros se transforma em uma das grandes questões de quem gosta de discutir “as grandes questões” que os livros instigam.
Há livros sobre os móveis, sobre as mesas, sobre o criado-mudo, sobre o criado-falante. Há livros até mesmo nas estantes!
Pois chegou a hora de me despedir de alguns deles.
Livros que já não me despertam as mesmas paixões que um dia despertaram. Discussões que não faço mais questão de discutir.
Hipóteses falhadas, teorias improváveis, ciências obsoletas, leis ultrapassadas, fés reduzidas a superstições.
Me dói a despedida porque eles contam…
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