Experimento simula impacto da seca extrema na Floresta Amazônica
Pesquisadores estudam possíveis cenários para entender a capacidade da Amazônia de se readaptar e sobreviver
Cientistas têm monitorado por mais de duas décadas os efeitos de uma seca simulada em uma área da Amazônia, em um esforço para compreender o que aconteceria com a maior floresta tropical do planeta sob um futuro cenário de mudanças climáticas com chuvas drasticamente reduzidas.
O experimento, conhecido como Esecaflor (Experimento de Seca na Floresta), é o mais longo do tipo no mundo, e antecipa alternativas sobre a resiliência da floresta e seu papel no ciclo do carbono global.
Detalhes e resultados do experimento
Lançado no ano 2000 por uma colaboração de pesquisadores brasileiros e britânicos, o projeto Esecaflor está instalado na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará.
Para simular a seca, uma área de um hectare foi coberta com aproximadamente seis mil placas plásticas transparentes, dispostas de forma inclinada para desviar cerca de metade da água da chuva que normalmente alcançaria o solo.
Uma parcela idêntica ao lado serve como grupo de controle para comparação. Sensores no solo, troncos e abaixo da superfície coletam dados sobre umidade, temperatura, crescimento de árvores, fluxo de seiva e desenvolvimento de raízes.
Além disso, radares da NASA posicionados em torres metálicas monitoram a quantidade de água nas plantas, permitindo avaliar o nível de estresse da vegetação. Segundo Fabiano Maisonnave, o estudo já serviu de base para dezenas de pesquisas em diversas áreas científicas, incluindo meteorologia, ecologia e fisiologia.
Inicialmente, a floresta parecia resistir bem à redução hídrica, conforme relatado por Lucy Rowland, professora de ecologia na Universidade de Exeter. No entanto, após cerca de oito anos, os pesquisadores observaram mudanças significativas, incluindo uma grande redução na biomassa e a morte de muitas das árvores de maior porte.
Como consequência, a área experimental perdeu aproximadamente 40% do peso total da vegetação e do carbono que estava armazenado ali. O estudo, cujas principais conclusões foram publicadas na revista científica Nature Ecology & Evolution, demonstrou que a floresta na área simulada deixou de funcionar como um sumidouro de carbono (absorvedor de CO2) e passou a emitir carbono para a atmosfera, até alcançar um novo estado de equilíbrio. Apesar da severidade da seca simulada por décadas, uma constatação importante foi que a floresta não se transformou em savana, como alguns modelos climáticos anteriores haviam projetado.
Conexões com a realidade e próximas etapas
A situação simulada pelo Esecaflor guarda semelhanças com eventos recentes na Amazônia, que enfrentou secas intensas nos últimos dois anos, agravadas pelo fenômeno El Niño e pelas mudanças climáticas globais. As consequências dessas secas naturais foram severas, incluindo a morte de botos e grandes áreas de floresta antiga atingidas por incêndios.
Embora o El Niño recente tenha adicionado fatores como picos de temperatura e aumento da secura do ar (déficit de pressão de vapor), o experimento Esecaflor focou especificamente na manipulação da umidade do solo. No entanto, Lucy Rowland observa que tanto na simulação quanto nas secas reais, a floresta demonstra uma perda de sua capacidade de absorver carbono, resultando no retorno desse elemento para a atmosfera.
Em um desenvolvimento recente, a maioria das seis mil coberturas plásticas do experimento foi removida em novembro (referência à data da fonte). A nova fase do projeto consiste em observar e documentar como a floresta reage e se recupera após o período prolongado de estresse hídrico.
João de Athaydes, meteorologista, vice-coordenador do Esecaflor e professor da Universidade Federal do Pará, explica que a floresta já passou por um processo de adaptação, e o objetivo agora é entender se ela consegue se regenerar e retornar à sua condição original.
A ecóloga Rachel Selman, da Universidade de Edimburgo, destaca que ainda se sabe muito pouco sobre como a seca afeta os processos que ocorrem no solo, uma área que o monitoramento contínuo pode ajudar a esclarecer.
O projeto continua sem previsão de término, fornecendo dados valiosos para a ciência e a compreensão do futuro da Amazônia diante das mudanças climáticas.
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